PT

É por uma simples distraição

PROFESSOR FERRÃO



“Mas não pode ser. Por mais apertados que estejamos, por mais problemas que tenhamos, sonos mal dormidos ou por que motivos forem, é importante que a nossa
atenção fique, de preferência sempre, em estado de alerta”.
Nem sempre é possível. Humanamente não é possível que não nos passem coisas ao lado. Sobretudo quando o assunto tem que ver com actividades cognitivas,
que requerem de nós algum esforço a mais. Às vezes, julgo ser devido às companhias de fim-de-semana. Parte do Reino Unido gira à minha volta e nem mesmo os livros
complementares da Cambridge ou da Oxford University Press escapam. Catedráticos como Raymond Murphy com a sua linha
de manuais de inglês de primeira linha ‘Grammar in Use’ escapa à condição a que estamos todos submetidos: a imperfeição.
Nem mesmo naqueles dias em que o meu melhor ‘scotch’ é dispensado que o nosso lado peculiar nos solta. “Daí que não
tenhamos como escapar”, diz o ‘de Freitas’, numa aula de Didáctica II. “Mas é possível, com atenção, evitar.”
Mas para da Costa, com um espírito mais ou menos perfeccionista, “não é compreensível que se cometam
erros sempre que é possível evitá-los”. A questão é que não sabemos quando, às vezes, é que os erros, no caso,
linguísticos, são cometidos. “Sim professor. Não cometemos erros de propósito. As gralhas, por exemplo, só ocorrem devido à rapidez ao teclarmos, à pressa em entregarmos os trabalhos. Outras vezes, é por uma simples
distraição.”
E, como sempre, da Costa é muito atento e reiterou que as gralhas, sobretudo para quem está na especialidade, podem ocorrer, sim, na escrita. Agora, vocalizar a consoante, sem a autorização prévia de Celso Cunha,
Maria Relvas – como é conhecido entre os professores de Português em Angola – e Lindley Cintra, “como se em
presença do novo processo de formação estivéssemos, “dá reprovação directa”.
Eu, no lugar dele, de docente, optaria, como tenho feito grande parte das vezes, por mais explicações. Não sei se é
por causa do adjectivo distraído que o se opta, algumas vezes, por distraição ao invés de distracção.
Apesar de a palavra ser distraído (adjectivo verbal ou particípio passado do verbo distrair), o substantivo referente é distracção, do mesmo modo como ocorre em contraído (adjectivo verbal ou particípio passado do verbo contrair), cujo substantivo
é contracção. Por isso é que não pode, para essas palavras, qualquer tipo de simples distraição. “Se houver distracção (do
latim contractiōne) até ainda se pode perdoar”, dizia da Costa.

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