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Lúcio Lara morreu aos 86 anos

O homem que marcou o destino de Angola

Por Emídio Fernando

Esteve no centro do furacão da História recente de Angola. Fundou e marcou a ideologia do MPLA, foi secretário-geral, participou com vários nacionalistas na luta contra os colonialismos, aliado irredutível de Agostinho Neto, escolheu José Eduardo dos Santos para presidente. Organizado e metódico, guardou documentos e papéis que hoje ajudam a compreender Angola e o MPLA. Era considerado um duro.

Logo a seguir a morte de Agostinho Neto, em Setembro de 1979, Lúcio Lara, então o número 2 do governo e inseparável aliado do Presidente de Angola, não hesitou na escolha do sucessor: José Eduardo dos Santos. Havia, na cúpula do MPLA, quem defendesse a ‘linha natural’ , ou seja, ser Lúcio Lara a assumir a presidência do país e a liderança do MPLA. Mas foi ele próprio que convenceu José Eduardo dos Santos, numa altura em que, mais uma vez, o MPLA poderia entrar em conflitos internos.
O desapego por cargos viria a ser, aliás, o reflexo de todo o percurso de Lúcio Lara, que viria a culminar no afastamento voluntário de toda a actividade política em 2003, também descontente com os desvios ideológicos do MPLA. Até essa altura, tinha sido secretário-geral e deputado à Assembleia Nacional, liderou a primeira comitiva do MPLA que chegou a Luanda vinda do exílio, em 1974, deu posse a Agostinho Neto e a José Eduardo dos Santos.
Lúcio Lara estudou no Huambo e no Lubango, antes de rumar para Portugal, para se licenciar em Ciências Fisico-Quimicas. Em Lisboa, faz amizade com Mário Pinto de Andrade, Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos e Agostinho Neto e lida com militantes do Partido Comunista que viriam a influenciá-lo nas opções ideológicas. Começa a participar nos movimentos nacionalistas que o levam a formar o Movimento Anti-Colonial (MAC), em 1957, e a organizar a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), em 1961.
Marcado pelos estudos do marxismo-leninismo, é através da escrita de cartas, documentos, memorandos, actas, moções, relatórios, que Lúcio Lara marca a História de Angola e, em especial, condiciona toda a trajectória política e ideológica do MPLA. Co-fundador do movimento, desde sempre é o aliado mais precioso de Agostinho Neto, especialmente quando o movimento se dividia em três frentes, com fortes guerras intestinas, na década de 1960, entre ‘netistas’, a Revolta Activa e a Revolta do Leste. Em Maio de 1977,está de novo na primeira linha ao lado de Neto contra os ‘nitistas’ e a tentativa de Golpe de Estado.
A sua vida é marcada por ser um acérrimo defensor da independência de Angola e um revoltado permanente contra aquilo que considera uma “violenta opressão” do colonialismo português. Essa consciência é ganha bem cedo. Afinal, o próprio nascimento, em 1929, simbolizava a marca que o colonialismo fazia questão de empreender: mestiçagem. O pai era um fazendeiro português, a mãe, nascida no Bailundo, era neta de um soba da comuna de Mungo. Lúcio Lara viria a nascer em Abril, no Huambo, e cedo toma partido da parte africana da família.
Ajuda a fundar o MPLA com Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Agostinho Neto, Eduardo Macedo dos Santos, Hugo de Menezes e Matias Miguéis. Em 1961, é o principal autor de um dos documentos mais importantes da história da guerra pela independência: o ‘Projecto de Programa de Acção Político-Militar do MPLA’. É nesta proposta que fica traçado o rumo do MPLA que iria condicionar a vida do partido até finais de 1992. Entre as linhas programáticas e ideológicas, com uma clara opção pelo marximo-leninismo de inspiração soviética, Lúcio Lara propõe a definição do hino e da bandeira “revolucionários”, a criação de um Conselho Revolucionário e de serviços de segurança, com espionagem e contra-espionagem, e define como urgente a formação de quadros políticos e militares que futuramente pudessem governar.
A sua dureza ideológica é ainda decisiva na formação de dirigentes políticos e na definição de linhas de comportamento. No exílio, antes da independência, e em Angola, após 1975, Lúcio Lara fica conhecido por ser intransigente na defesa da linha ideológica. Por isso, até chega a travar o pedido de Jonas Savimbi, em 1963, de ser militante do MPLA, formulando-lhe um conjunto de perguntas que pretendiam avaliar a pureza ideológica e que ficaram sem resposta.
No período antes da independência, Lúcio Lara lidera as principais conversações com os países que viriam a ser aliados de Angola: União Soviética, Cuba, Jugoslávia e Checoslováquia.

Do Huambo para o mundo

Lúcio Lara nasceu no Huambo (antiga Nova Lisboa), a 9 de Abril de 1929, filho de um português com uma angolana, descendente de um soba. Estudou no Lubango e em Lisboa, onde casou com Ruth, filha de um alemão e de uma judia, ambos fugidos do terror nazi. Rapidamente, Ruth Lara abraçou a luta pela independência, acompanhando o marido na guerrilha no interior de Angola e no exílio. Lúcio e Ruth tiveram três filhos: Paulo (nascido na guerrilha), Wanda e Bruno . Ainda adoptaram, em Brazzaville, Michel Mabeko Tali. Lúcio Lara morreu em Luanda, no sábado.

De papel em papel

Metódico e organizado, Lúcio Lara, tanto na guerrilha como no exílio no Congo, não larga os documentos, entre cartas, manuscritos, notas, guarda-os e transporta-os pelos diferentes locais onde viveu: Argélia, Congo-Brazzaville, Lisboa, Luanda. São esses documentos que hoje constituem o maior acervo da Hist+oria contemporânea de Angola, editados pela Associação Tchiweka, formada por Lúcio Lara, precisamente para divulgar a História de Angola. Com os documentos, já foram publicados três volumes.

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