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Evaristo Mulaza
Director Geral

Jejum espiritual

O Banco Nacional de Angola (BNA) tem um novo governador, desde sexta-feira última. É jovem, a caminho dos 42 anos. Chama-se Valter Filipe e é jurista. A informação disponível sobre o novel responsável do banco central identifica-o essencialmente como académico, assessor e consultor. E a referência mais importante que o relaciona com as questões financeiras e bancárias, e mais especificamente com a governação e o papel do banco central, é a sua tese de mestrado. A surpresa com que se encara a sua nomeação explica-se precisamente por esse detalhe.
Ou seja, pelo seu ‘curriculum’. Mais na perspectiva da sua experiência de trabalho do que propriamente da sua formação académica.
Afinal não é a primeira vez que o banco central é governado por um jurista. Aguinaldo Jaime é dos ex-governadores do BNA mais referenciados e, à semelhança de Valter Filipe, é formado em Direito.
Mas, em termos de folha de serviço, há diferenças relevantes entre os dois à chegada ao banco central.
Aguinaldo Jaime, ao contrário de Valter Filipe, chegou ao BNA, depois de ter sido ministro das Finanças e presidente o Banco Africano (hoje Angolano) de Investimentos. Áreas estreitamente relacionadas com o espaço de intervenção do banco central.
Quer em nível da execução das políticas monetárias e cambiais. Quer no plano da fiscalização e regulação do sistema financeiro. Aguinaldo Jaime tinha, por isso, argumentos mais sólidos que faziam encarar a sua indicação à governação do BNA, com menos ansiedade. A juventude de Valter Filipe, no rigor comparativo, também não entra nas contas das expectativas. José de Lima Massano, que liderou o BNA por quatro anos, sentou-se no cadeirão do banco central antes de completar 40 anos. Todavia, mais uma vez, Massano distingue-se pela experiência. O actual presidente executivo do BAI aportou no BNA com uma reputação ímpar, que o colocava simplesmente entre os melhores tecnocratas da sua geração, na gestão das finanças e da banca.

Valter Filpe tem, por isso, provavelmente o teste mais difícil do seu percurso profissional, porque qualquer outra missão futura terá sempre como referência a sua passagem pelo banco central. Uma passagem que se opera no contexto mais difícil da economia angolana no pós-guerra. Que impõe maior complexidade técnica e política na leitura do papel do BNA na solução da crise. E que só por isso, tendo-se tornado insustentável o desempenho de José Pedro de Morais, se esperava por um substituto mais experimentado.
Mas, dito isto, há outra verdade que tem de ser lembrada. Todo o valor da experiência, no caso da governação do BNA, só faz sentido para referências teóricas. A prática dá outro registo. Mostra que pelo menos os últimos quatro antecessores de Valter Filipe, todos mais experientes e formados nas áreas económicas, deixaram o BNA por mau desempenho. E a saída de José Pedro de Morais, um ano após a sua indicação num cenário de grave crise económica, roça quase o escândalo. Aqui pode estar, por isso, o argumento de defesa de Valter Filipe.
Há, no entanto, uma questão crucial com a qual o novo governador terá de lidar e que condiciona a sua “visão estratégica” sobre o papel do BNA. No sistema económico angolano, o banco central não é mais importante que o Executivo. A definição e condução da política monetária e cambial é da responsabilidade do Executivo. É constitucional. O BNA
apenas auxilia e executa. É, portanto, um órgão completamente dependente. Pelo que se percebeu, na entrevista que concedeu ao jornal ‘Mercado’, Valter Filipe pensa diferente. Acha que o banco central é mais importante que o Executivo. Se o que motivou a sua nomeação é o seu “pensamento estratégico”, então já está identificado o primeiro ‘calcanhar de Aquiles’ da sua governação. Mais do que uma simples reza, Valter Filipe vai precisar de um verdadeiro jejum espiritual.

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