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Emídio Fernando
Editor Executivo

Resignação

Os retratos que Angola nos oferece têm, por demasiadas vezes, imagens aterradoras, mas que dão a perfeita noção do significado de incúria e insensibilidade.
Pela segunda vez, em menos de um ano, o Hospital Pediátrico do Sumbe ficou inundado de tal forma que obrigou à evacuação dos doentes. O que significa que, desde as chuvadas anteriores, nada foi feito. Mais criticável é o facto de o mesmo hospital ter sido construído numa zona vulnerável às cheias. Sem que se tivesse o cuidado, por exemplo, de arranjar condições, antes de se montar o equipamento.
Quando as cheias acontecem nos musseques, em bairros degradados, não faltam autoridades provinciais e municipais a criticar os moradores por terem construído em locais perigosos. À toa, diz-se. Desta vez, não se ouvem as mesmas críticas. Verdadeiramente à toa foi a construção e a escolha do local para se instalar um hospital.
Na Huíla, morreram mais de 30 pessoas, vítimas de enxurradas – é um dos pontos de investigação – que poderiam ter sido provocadas pelo rebentamento de um dique. Só que esse dique existe há 40 anos, estava numa fazenda abandonada por um antigo proprietário sul-africano. Até hoje, ninguém mexeu uma palha, ninguém preveniu que um dia a desgraça poderia se abater. Eis o resultado. É também uma gestão feita ‘à toa’, sem capacidade de prevenir.
Mais do que o desleixo, a governação e a gestão das coisas públicas demonstram, vezes de mais, uma tremenda insensibilidade social. Não é só incompetência. A lógica que prevalece é quem está em baixo, em baixo deve ficar. Ou então, as autoridades assumem aquilo que o novo governador Banco Nacional de Angola, Walter Filipe, entende como estratégia: confiar em Deus.
Pois que se continue sem agir e confiar na gestão dos deuses e o céu vai continuar a cair-nos na cabeça. E com a contagem macabra: dezenas de mortos, sempre que chove. É esta resignação que incomoda.

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