PT
Geralda Embaló
Directora Geral Adjunta

E agora pergunto eu…

A semana que passou foi recheada de acontecimentos.Uns menos interessantes, como a brejeirice de casais que se resolveram substituir às novelas mexicanas com que a nossa TV tanto insiste em desperdiçar emissão, acusando-se de traições, negando paternidades (Freddy vs Yola) e publicando acusações de seropositividade (Bento Bento vs ex), e outros melhores que nada, como o comunicado de Manuel Vicente em defesa da sua honra que, quanto mais não seja, demonstra preocupação com sossegar a opinião pública. Tivemos outros acontecimentos mais interessantes como as arrojadas declarações do líder da ‘jota’ no covil das mamãs da OMA, “critiquem-nos menos, ajudem-nos mais”. Luther Rescova manteve a humildade, mas foi incisivo, assertivo e falou no fórum apropriado que é o que a maioria dos nossos políticos tende a não fazer, optando por conversas de corredor muitas vezes sem resultados. A geração de jovens, que é tão criticada pelos mais velhos, foi criada por eles e só com compreensão e entreajuda podemos melhorar. Esteve bem, políticos jovens com coragem precisam-se.
Por falar em políticos jovens, e apesar de ser apologista do investimento em novos valores, houve acontecimentos que só podem meter medo. Muito medo mesmo, como a nomeação de um jurista para governador do BNA, que não tem grande histórico de banca e que talvez, graças ao passado seminarista, nos pede para “rezar pela economia” nacional. Será a esperança de que a beatice iniba o apelo à corrupção inerente à cadeira que vai ocupar ou o facto de ter corrido mal com todos os economistas que o antecederam que leva à vontade de experimentar novas e curiosas receitas em tempo de crise? Como o desempenho é o que conta, a ver vamos.
Aconteceu também o Festival de Sons do Atlântico que reuniu milhares de jovens e que me possibilitou ver, pela primeira vez, um ídolo da adolescência, Gabriel, o Pensador.
Por muita coisa que corra mal no país, por toda a corrupção e má gestão pública a que os ‘revus’ apontam o dedo, essa moda de pedir a todo o cantor que não venha a Angola já perdeu toda a piada, assim como perderam eles a oportunidade de ver o ‘rapper’, bem ao seu estilo, descompor os políticos e berrar que “lugar de ladrão é na prisão”. Deviam ter incentivado as pessoas a ouvir em vez de pedir boicotes em nome de direitos humanos que, como lembrou o Pensador, são atropelados em tantos países que se fossem todos boicotados não havia ‘shows’ em lado nenhum (basta olhar para a crise dos refugiados na Europa). O facto de estar tanta gente no concerto lembra, mais uma vez, que, embora os ‘revus’ tenham razão em muitas críticas, certamente não representam a maioria dos jovens angolanos.
E em democracia, a maioria é que conta. Era bom que nos deixássemos de tentar obrigar os outros a ter a mesma opinião que nós. O fundamentalismo deixa muito a desejar venha de onde vier.
A propósito de opinião, fiquei espantada com as reacções ao texto da semana passada que parecia confluir no choque com a breve menção a Isabel dos Santos. Pareceu-me que toda a gente, incluindo gente do MPLA e que passa (ou ganha) a vida a dizer que estamos numa democracia madura, tem ideia de que muitos assuntos são tabu e que a fortuna da filha do PR é um deles.
Não faço parte do coro da inveja (que é grande), ou do que se insurge contra os capitalistas acumuladores e que acham que ser filha do PR devia ser punitivo (em vez de lucrativo). Vi, na internet, um grande reboliço há umas semanas por causa de um terreno comprado pelo seu marido numa província e pareceu-me absurdo o alarido e as evoca- ções nacionalistas (quase racistas) contra uma aquisição que, se pagar impostos, criar valor, empregos e produzir, é bem mais benéfica do que estar o terreno parado nas mãos inertes do Estado. No que diz respeito à empresária, o valente número de empregos que criou em Angola, só por si, fala do mérito e não faltam pelo mundo fora filhos de presidentes que não produzem nada.
Dito isto, quer-me parecer que existe uma estranha contradição entre o perfil de filha e o de mulher de negócios. E agora pergunto eu: com tanta inteligência, sapiência que lhe atribuem os que a conhecem, como é possível que não veja o estrago que a sua omnipresença negociante causa à imagem do pai? E que causa mesmo à imagem do país? Uma breve busca no Google sobre Angola põe no topo, não o país, não o que nele se faz ou existe, não o histórico do Presidente ou mesmo a guerra, mas Isabel dos Santos a mais nova multibilionária africana e as consequentes associações ao tráfico de influências e corrupção. Na recente entrevista ao Wall Street Journal, Isabel dos Santos reiterou que não precisa do dinheiro do pai. Acredito pela simples razão de que se criou uma cultura de que, se se quer fazer grandes negócios em Angola, a melhor via é através da filha do PR e isto faz com que os negócios venham ter com ela. Faz também que quem quiser ser discreto se esconda atrás dela que dá a cara em todo o lado e em todo o sector sem qualquer coibição. É nos diamantes, nas telecomunicações, na energia, na banca, na reforma da capital, na reestruturação da Sonangol.
A avaliar pela displicência, pelos danos colaterais do seu apetite pelos negócios à imagem do Presidente, pertencerá Isabel dos Santos à oposição?

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