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Sporting de Luanda à procura de se salvar

Clube exige terreno e apoios

Por Raimundo Ngunza   /  Foto Santos Samuesseca

O Sporting de Luanda vive momentos difíceis. Reduzido a duas modalidades, luta pela sobrevivência e reivindica a posse de um terreno nos Coqueiros, prometido há mais de 10 anos. Os dirigentes garantem que o clube ficou sem quase quatro mil metros quadrados. O Governo Provincial tem dúvidas sobre a existência desses documentos.
Dentro do estádio dos Coqueiros existem quase quatro mil metros quadrados (3.783 m2) que o Sporting de Luanda reivindica como sendo seus. E identifica o terreno que vai da baliza sul até ao pavilhão multiusos. A direcção do clube assegura que possui documentos a provar a titularidade do espaço. O terreno foi ocupado e faz parte do complexo do Estádio dos Coqueiros. Na altura em que o estádio foi recuperado e remodelado, há mais de 10 anos, o governo provincial, proprietário do estado, prometeu ceder um terreno e outras regalias ao clube. Mas as promessas nunca foram cumpridas. Marcelino Lima, primeiro vice-presidente do clube, garante que possui a acta desse encontro. Segundo conta o dirigente ‘leonino’, antes da independência, as autoridades coloniais pretendiam construir uma estrada que iria ligar o Palácio da Cidade Alta à marginal. Negociaram com o clube e cederam um terreno onde se encontra a sede.
Volvidos mais de dez anos, desde a recuperação e remodelação do Estádio dos Coqueiros, a direcção do Sporting de Luanda volta a reclamar o espaço subtraído.
Cansado de contestar, o dirigente quer deixar vincado que não pretende entregar de bandeja o terreno nem alguns troféus mais antigos e emblemáticos que estão abandonados por falta de espaço.
O histórico Sporting de Luanda, fundado em Agosto de 1920, atravessa uma fase difícil que se arrasta há algum tempo. As elevadas dificuldades financeiras levaram à saída de atletas para outros clubes e o desaparecimento de modalidades, como o hóquei, voleibol e futebol que fizeram o Sporting como um dos maiores clubes do país. Chegou a ter mais de dez mil sócios, hoje não possui mais de 100, mas fiéis que pagam com alguma regularidade as quotas.
Dispõe do basquetebol em sub-10 e 12 e andebol até ao escalão júnior. Nestas duas modalidades, soma sucessos: foi campeão nacional de juniores em 2013 e forneceu vários jogadores para a seleção de cadetes que participou no africano do Quénia. Para voltar a competir no andebol e basquetebol seniores, em ambos sexos, prevê gastar mais de 19 milhões de kwanzas por época.
Narciso Miller, director para o basquetebol, não esconde que o clube vive “momentos críticos” e lamenta o estado do pavilhão, uma vez que passaram muitos basquetebolistas por lá, como Olímpio Cipriano, hoje a jogar no Recreativo do Libolo. Já José Cacoiro, antigo atleta de andebol, hoje treinador, não encontra palavras para descrever o estado do clube e garante que se mantém no Sporting “por amor”. Ainda assim, mostra-se convicto que vai ter sucesso nas diversas competições. A boa notícia é que o Ministério da Juventude e Desportos contratou uma construtora chinesa para a cobertura e reabilitação do pavilhão após vários meses de paralisação. As obras devem arrancar em breve para alento e alegria da direcção do clube e vão passar pela cobertura do pavilhão, recuperação das bancadas, casas de banho e iluminação.

Sofrer muito

Marcelino Lima confessa “sofrer imenso” com o clube, que se degrada, “sem haver culpa dos sportinguistas”, mas sim “da falta de apoio”.
O dirigente teme “nunca mais ver o Sporting em condições” e entende que o Estado “não devia apenas apoiar cinco ou seis clubes, mas todos de Angola”. Marcelino Lima aconselha o Ministério da Juventude e Deportos a olhar para os clubes que formam jogadores talentosos.
Sem detalhar valores, revela que a última vez que recebeu apoio do Estado foi em 2002, através do Ministério das Finanças. Para a história, fica o título de campeão nacional conquistado esse ano e o 2.º lugar obtido no africano em andebol sénior masculino decorrido no Quénia. Na altura, cada atleta recebia 20 mil kwanzas por mês.

No ranking da FIFA

Em menos de três meses, Angola saiu do 105.º lugar da tabela da FIFA para a 121ª, e está a três lugares do seu pior registo, quando em Março de 1994 ocupou o 124º lugar. Para a FAF não foi surpresa tendo em conta os últimos resultados nos jogos de qualificação para o CAN, do próximo ano, no Gabão.

Angola voltou a descer na classificação da FIFA para as melhores selecções do mundo. Desta vez, caiu 12 lugares. Passa a ocupar a 121.ª posição e está a três lugares de igualar a sua pior posição de sempre, a 124.ª posição, alcançada em Março de 1994, numa altura em que o país vivia em guerra. A melhor classificação aconteceu em Julho de 2000, em que Angola chegou a ocupar o 45.º lugar.
Ano após ano, a selecção vai caindo de forma vertiginosa na tabela e ficando cada vez mais distante das 100 melhores do mundo. No início do ano, estava no 105.º lugar.
As duas derrotas recentes diante da República Democrática do Congo, em jogos a contar para a fase final de qualificação para o Campeonato Africano das Nações (CAN), a disputar no próximo ano, contribuiu, e muito, para as contas.
Em declarações ao NG, o porta-voz da Federação Angolana de Futebol (FAF), João Lusevikueno, não vê qualquer “surpresa” e até esperava depois dos últimos resultados da selecção. “É normal que depois da derrota tenhamos descido”.
Por sua vez, o crítico Rui Gomes entende que a queda vertiginosa e acentuada da selecção deve-se à “teimosia” da FAF. “Queremos frutos sem trabalhar, isso não é possível”. Defensor da saída da actual direcção do órgão que rege o futebol angolano, o comentador lamenta a posição em que a selecção se encontra e que “não merecia”. Para ele, isso só acontece por “não termos uma federação à altura das reais necessidades do nosso futebol”. E culpa ainda os clubes pela “fragilidade” demonstrada nas competições africanas. “Os clubes não permanecem muito tempo nas competições africanas e são eliminadas no primeiro ou segundo jogo”.
Por isso, apela a necessidade de se “trabalhar muito” para mudar o actual cenário do futebol angolano. Sobre o CAN, Rui Gomes garante que não acredita no apuramento e nem no trabalho da federação. “A federação não está a fazer nada para o futebol angolano”, acrescenta.

Explicação

Elaborado desde Agosto de 1993, o ‘ranking’ mundial da FIFA é um sistema que classifica as 209 selecções nacionais de futebol associadas à Federação Internacional de Futebol (FIFA). A primeira selecção a liderar foi a Alemanha. A estreia abrangeu o período entre Julho de 1992 a Julho de 1993.
A lista já passou por diversas reformulações. A mais recente foi depois do Mundial de 2016, na Alemanha. A lista é divulgada pela FIFA mensalmente.
O ‘ranking’ leva em conta os resultados de todas as selecções filiadas à entidade nos últimos oito anos, em amistosos e competições oficiais da FIFA e das confederações continentais. Só entram jogos entre selecções A. Logo, a olímpicas, de juniores ou categorias inferiores, feminina, partidas de seleções contra clubes etc. não contam.
Em Janeiro, Angola ocupava o 29.º lugar do ‘ranking’ da Confederação Africana de Futebol.

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