PT

Por dentro do Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (ISPTEC)

Onde os ‘garimpeiros’ não sobreviveriam

Por Onélio Santiago   /  Foto Mário Mujetes

A apresentação da monografia dos primeiros 22 licenciados foi o pretexto para uma reportagem no ISPTEC. E a surpresa não se fez esperar. Por trás das paredes cinzento-amarelas, existem laboratórios sofisticados, estudantes satisfeitos e professores a trabalhar de acordo com as horas previstas na Lei Geral do Trabalho’.

Quem vai para o Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (ISPTEC) pela primeira vez é capaz de confundir a cave da instituição (piso -1) com as oficinas de uma grande fábrica de engenharias e tecnologias. A robustez dos 56 laboratórios (cinco básicos e 51 profissionais), a complexidade das máquinas que lá se encontram e o rigoroso controlo no acesso (nalguns casos, com o uso de botas e pesados fatos-macacos) deixam qualquer visitante perplexo. Talvez seja por isso que o chefe do departamento de Engenharia e Tecnologias, José Gaspar, prevê que o ISPTEC, nas próximas décadas, “será reconhecido não só em Angola, como a nível regional”. “Defendemos valores como a ética, honestidade e justiça, a responsabilidade social e ambiental, estímulo ao pensamento crítico e reflexivo”, explica, referindo que uma instituição de ensino superior “deve virar-se à investigação científica”. Por isso, acrescenta José Gaspar, o ISPTEC aposta em biotecnologia, tecnologia de informações e comunicação, gestão universitária, energia e geociências, havendo inclusive projectos da instituição a concorrer em iniciativas governamentais.
Tudo isto, no entanto, contrasta com o balanço do ano lectivo passado, em que a taxa global de aproveitamento dos estudantes foi de 55 por cento – uma diminuição de cerca de seis por cento, comparativamente a 2014. Ainda em 2015, o ISPTEC registou uma taxa de evasão de 21 por cento, ou seja, em cada 100 estudantes, 21 desistiram. Estes números parecem não preocupar José Gaspar, que refere que as engenharias “envolvem maior grau de complexidade” e que as dificuldades “estão ligadas ao conceito que o estudante traz nos anos anteriores”. Este responsável explica ainda que as desistências ocorrem “com mais frequência, nos finais de semestre”. José Gaspar associa a ‘fuga’ dos estudantes aos “problemas económicos”, embora entenda que os preços das propinas no ISPTEC (31.000 a 43.750 kwanzas), que não sofreram qualquer alteração entre 2015 e 2016, são “bastante razoáveis”.
O que não deve ser razoável, a julgar pelo que dizem os estudantes, é a qualidade de ensino. Adilson Mendes, por exemplo, trocou a Química da Universidade Agostinho Neto (UAN) pela Química do ISPTEC. Ao marcar as diferenças entre as duas instituições, não tem dúvidas: “O ISPTEC é mais organizado. Lá [na Faculdade de Engenharia da UAN], houve cadeiras em que não tive aulas porque o professor trabalhava na sonda”, recorda o jovem, de 23 anos, que ficou na UAN entre 2011 e 2013, tendo-se mudado para o ISPTEC em 2014, depois de um amigo lhe dizer que a instituição, com parceria com a Sonangol (ver caixa), concedia bolsas de estudo.
A frequentar o 3.º ano de Engenharia Química, sem se preocupar com as propinas por ser bolseiro, Adilson Mendes elogia o sistema de tempo integral implementado na gerência de professores. Este ‘regime’, em que estão envolvidos 102 dos 156 docentes, obriga a que mais de metade dos professores, além de dar aulas, cumpra com as horas estabelecidas na Lei Geral de Trabalho. José Gaspar justifica a medida com a “busca pela qualidade de ensino”. Segundo o chefe do departamento de engenharias e tecnologia, “não se faz universidade apenas com as infra-estruturas, a preparação do professor é fundamental”. “Por esta razão, mesmo sem os obrigar, há professores em regime de tempo parcial que também ficam na universidade depois das aulas”, revela José Gaspar, que não tem dúvidas de que “isto se deve às condições de trabalho”. “Temos uma mesa e um computador, ligado à internet, à disponibilidade de cada um dos professores.”
Kátia Gabriel, professora e mestre em Química pelo Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, aponta as insuficiências dos estudantes do ISPTEC: “Recebemos estudantes que, apesar de terem estudado Química no médio, nunca tiveram a oportunidade de estar num laboratório e, nalguns casos, não sabem sequer o que é isso”. A instituição implementou as cadeiras de Introdução ao Laboratório – uma disciplina transversal cujo conteúdo varia conforme o curso.
Professora de Físico-Química e Química Experimental no ISPTEC há três anos, Kátia Gabriel entende que o sistema de ensino angolano “tem muitas debilidades”, que, na universidade, se nota através dos estudantes recém-admitidos e não só. “A maior dificuldade do ISPTEC é, por conseguinte, formatar os estudantes ao nosso perfil; recebemos uma matéria-prima bruta, tão bruta, tão bruta, que nos dá realmente muito trabalho.”

Poucas mulheres

Os dados do ISPTEC, relativos a 2015, dão conta de que 26 por cento dos estudantes são mulheres. Dos 1809 inscritos no ano passado, cerca de 470 estudantes eram do sexo feminino. Entre eles, encontram-se Nayol Cabanga, de 21 anos, e Maria dos Santos, de 23. Ambas frequentam o 3.º ano. A primeira estuda Engenharia Química, a segunda Gestão. Apesar de divergirem nas opções de formação, as duas convergem nos elogios aos métodos de ensino. Nayol Cabanga, por exemplo, entende que a diferença entre o ISPTEC e outras instituições reside na “valorização da assiduidade”. “Há muito rigor quanto às faltas. Não se quer apenas engenheiros que apareçam para fazer provas. Prima-se pela excelência e, por isso, não há tolerância aos faltosos”, refere Nayol Cabanga, que considera o ISPTEC a “universidade do futuro”. E justifica: “Quem termina aqui sai muito bem preparado porque os professores que leccionam são rigorosamente seleccionados.”
Maria dos Santos estudou Ciências Físicas e Biológicas no médio, mas decidiu apostar na licenciatura em Gestão. Entende que fez a “melhor escolha” da sua vida porque este curso, além de lhe permitir (no futuro) “trabalhar em qualquer sector”, deu-lhe a possibilidade de estagiar no departamento de comunicação e imagem do próprio ISPTEC. “Estou a aliar a teoria à prática, e estou fazê-lo numa só instituição, o que me permite tirar dúvidas a qualquer momento.”

» LEIA TAMBÉM

» Deixe o Seu Comentário