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Projecto pretende recuperar as raízes africanas

Nanuto quer o som do batuque no saxofone

Por Pihia Rodrigues   /  Foto Mário Mujetes

O saxofonista angolano está a montar um projecto com 30 instrumentistas de sopro, que vão adaptar o som dos instrumentos, principalmente tradicionais, para o saxofone e outros como trombone e trompete. Fez uma recolha de música tradicional e quer espalhá-la em Angola e lá fora.
O saxofonista Nanuto vai reunir 30 instrumentistas de sopros para adaptar a sonoridade da música tradicional angolana. O objectivo, segundo ele, “é imitar o som de qualquer instrumento musical, incluindo a percussão (batuque, bateria e outros), para o saxofone, trombone, trompa, trompete, tuba, flauta, etc.”
O espectáculo vai ser pela primeira vez apresentado no Palácio de Ferro, em Luanda.
O desafio a que se propõe o saxofonista é revitalizar o cancioneiro popular só com instrumentos de sopro. Ou seja, tocar apenas com saxofone e outros instrumentos de sopro ritmos como a tchianda (das Lundas), vaganguela (Kuando-Kubango), kitwene (Cabinda), etc.
O músico fez uma pesquisa e recolha, viajando pelas aldeias do país em busca da tradição do cancioneiro nacional. Admite que a passagem pela rádio e as diversas graduações em música lhe garantem confiança para desenvolver o projecto.
Os artistas que vão compor o projecto são jovens de diferentes bandas e têm trabalhos a solo, mas com pouca estrada no mercado. Cada um leva o próprio instrumento. “A ideia é projectar quem ainda não é conhecido, trocar experiências com quem já está na linha da frente”, explica Nanuto.
O músico está preocupado em procurar alternativas para os colegas, já que acredita que “falta muita estrada” nos instrumentistas de sopro do país, por causa das poucas ‘chances’ de apresentação. Aconselha, por isso, os músicos a “tocarem em vários projectos e em vários contextos” e não apenas com nomes já feitos. Além deste projecto, enquadrado no âmbito da terceira trienal de Luanda, Nanuto já conta com o projecto ‘Muimbu’ (canção em bimbundu), um trio composto por Carlitos Vieira Dias na guitarra, Dalu Roger na percussão e Nanuto no saxofone. Já foi apresentado em Luanda, mas a meta “é internacionalizar” o conceito.
Pretende convidar, também, o conjunto ‘Angola 70’, um grupo de mais velhos, todos instrumentistas: quatro guitarristas e igual número de percussionistas, em que se destacam nomes como Boto Trindade, Joãozinho Morgado, Zeca Tirilene e Chico Montenegro. Este último é um dos fundadores do grupo ‘Jovens do Prenda’.

Trabalhar as raízes

Além da preocupação em sonorizar instrumentos de sopro as músicas tradicionais, Nanuto quer ir mais longe: não só ir à busca das raízes, mas “trabalhar as raízes”. Sente necessidade de procurar por coisas diferentes, por isso já não se encanta com o que lhe é oferecido à superfície. Quer explorar os ritmos das diferentes regiões do país.
O artista revela que estas ideias já nasceram há muito tempo, “só faltava oportunidade” para as realizar, por isso elogia a Fundação Sindika Dokolo que as efectiva através da trienal. “A fundação, neste momento, é o nosso Ministério da Cultura”, considera.
Nanuto defende que “muitos dos nossos grandes músicos não estão a ter projecção porque não estão a trabalhar as raízes”. Reforça ainda que os textos das músicas são “normalmente politizadas”. “O projecto morre a partir do momento em que se politiza a música”, enfatiza. Desafia a que se olhe, a nível internacional, quantos artistas estiveram na ribalta e que se perderam. Daí, insinua que o problema está nestes artistas que “menosprezam as tradições”.

Saxofonista maior

Nanuto é o nome artístico de António Fernandes Fendes. Começou a tocar aos oito anos na ‘Casa dos Rapazes’, em Luanda. É considerado um dos três melhores saxofonistas africanos.
Frequentou cursos superiores na Academia de Música de Luanda, onde estudou até ao 5.º ano, seguiu para a escola de hazz, ‘Hot Club Jazz’, em Portugal, passando pela escola de música clássica ‘Gulbenkian Música’. Em Havana, Cuba, estudou no ‘Conservatório Nacional’. Esteve também em Berklee College of Music, em Boston, EUA. Já tocou com estrelas internacionais como Compay Segundo e Pablo Milanez, em Cuba. Esteve em ‘Rock in rio’ de Lisboa com Alicia Keys, Sting e Ivete Sangalo, com 170 mil espectadores. Acalenta o sonho de fazer dupla com o renomado saxofonista norte-americano Kenny G., incluindo realizar um trio com Manu Dibango e Kenny G.

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