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‘Doutor Romeu’ recorda trajectória

Escapar ao crime para se ‘doutorar’ no rap

Por Onélio Santiago   /  Foto Santos Samuesseca


A cantar há mais de dez anos, considera-se “mal percebido” por viver num país “onde tudo é politizado”. Com dois álbuns lançados, o rapper critica os mais velhos por estarem “desligados” dos jovens, aconselha os novos músicos a “melhorarem os conteúdos” e revela como conseguiu ‘fintar’ o mundo do crime.


Romeu António Máquina é um nome que poderia dizer muito pouco a quem acompanha o hip-hop angolano. Tudo porque Romeu, também conhecido por ‘Lapiseira Azul’, entrou e mantém-se no rap como ‘Doutor Romeu’. A alcunha de “doutor” foi-lhe atribuída pelos amigos do bairro, no Sambizanga, em Luanda, devido à facilidade com que consertava relógios e alguns electrodomésticos.


O rapper distingue-se ainda por andar sempre com uma bengala e por ter músicas que reflectem o dia-a-dia do musseque. A preferência por temas sobre esta realidade, no entanto, já lhe trouxe dissabores. Por exemplo, na música ‘Eu não quero ofender’, do primeiro álbum, há uma estrofe em que Doutor Romeu diz: “Há quem não está estudar nem tem educação, amanhã quer ser polícia, azar do cidadão”. Esta parte, segundo o rapper, “chocou alguns agentes da polícia”, que chegaram a abordá-lo por, alegadamente, “falar mal da corporação”, embora o rapper garanta que não teve intenção de ridicularizar nenhum agente.


“Quando um indivíduo não estuda e compra um certificado para ser polícia é triste. Falo deste tipo de indivíduos, aconselho que se tenha mais cuidado na selecção de quem vai para a corporação”, explica, considerando que é “mal percebido” por viver num país em que “quase tudo dá para a política”. “Quando me queixo da falta de luz no bairro e da falta de condições nos hospitais, não estou a falar de política. Pelo contrário, estou a ajudar os governantes, porque sou eu quem tem o microfone na mão e pode servir de luz a quem lidera”.


Ao lado do crime

Antes de se tornar no músico de intervenção social, ‘Doutor Romeu, actualmente com 31 anos, teve de travar uma ‘luta’ contra os assédios para entrar no mundo do crime. Natural do Sambizanga, ainda antes dos 18 anos, ajudava a mãe e o irmão mais velho, já que o pai os abandonara com mais cinco irmãos. Trabalhava como relojoeiro no extinto ‘Roque Santeiro’. Além de consertar relógios, reparava rádios e trabalhava como ajudante de pedreiro. Pelo meio, teve de superar a pressão de ver os “vizinhos marginais conseguirem coisas”, enquanto ele, a “trabalhar honestamente”, continuava no sofrimento. “É complicado evitar o mundo do crime quando tudo parece muito simples. Quando se sabe que, para assaltar determinada pessoa, basta que se fique no sitio ‘X’ a hora ‘Y’. Era fácil tornar-me marginal”, recorda, considerando que “só não aconteceu, porque as tentações encontraram sonhos e vontades bem definidas”.


‘Projectado’ na rádio

‘Doutor Romeu’ não consegue precisar há quanto tempo faz rap. Lembra-se apenas de se ter “apaixonado” pelo álbum ’99 por cento de amor’, dos SSP, publicado em 1996 – altura em que tinha 11 anos. Começou a imitar os SSP, particularmente Jeff Brown por ter “ideias e rimas bué loucas”.
Depois da ‘febre’ dos SSP, passou a inspirar-se em nomes como Phatharmak, Boss AC e Kool Klever. Quando aprendeu inglês, passou a seguir também o rapper norte-americano Eminem e a participar em concursos de ‘freestyle’.


Em 2005, venceu o concurso do ‘Big Show Cidade’, organizado por Big Nelo e Kool Klever na Rádio Luanda. O programa colocava quatro rappers em disputa todos os domingos. O vencedor de cada semana discutia a final do mês com outros três.Quem vencesse a final do mês disputava a final do ano com os vencedores mensais num dos largos da capital.


Em 2007, depois do “impulso” dado pelo ‘Big Show Cidade’, conheceu Miguel Neto, que realiza e apresenta, há mais de 20 anos, um programa sobre o hip-hop na LAC. Com Miguel Neto e outros apoios, lançou, em Setembro de 2011, o primeiro álbum intitulado ‘Estarei aqui’. Em Maio deste ano, lançou o disco ‘Voz de lapiseira azul’, que também já adoptou como cognome.

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