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Presidente da Associação Nacional dos Produtores e Transformadores de Sal, Odílio Almeida da Silva

“Temos um longo caminho a percorrer”

Por André Kivuandinga


Odílio Almeida da Silva defende a definição de reservas fundiárias e um crédito bancário com juros mais baixos e razos de reembolso longos. Angola tem metas de produzir 90 mil toneladas ano.


Como está a produção de sal?

Já estivemos piores. Começamos a sentir sinais positivos, uma vez que a procura aumentou, em função da escassez de dólares, importa-se pouco sal. Os produtores devem aumentar a produção e melhorar a qualidade do sal que produzimos. O sal produzido em Angola chega a todo o país e temos um grande mercado para exportação que é a África Austral. Muitos países desta zona não têm mar, logo podemos vender o sal angolano.


Quantas toneladas de sal produz por ano?

Estamos com uma produção que ronda os 45 a 50 por cento e a meta definida, em consenso entre produtores e o Ministério das Pescas, é de 90 mil toneladas/ano, e pretendemos atingi-la em 2017. Mas não posso dizer se poderão ou não satisfazer as necessidades reais do país, porque faltam estatísticas exactas das quantidades consumidas e as que o mercado necessita. Ainda temos um longo percurso para atingirmos essa meta.


A ministra das Pescas reconhece o défice na produção de sal de 130 mil toneladas. Quais as razões para esta baixa?

Angola tem este défice porque algumas unidades salineiras não estão a produzir dentro das reais capacidades instaladas. A indústria requer linhas de crédito e de financiamento especiais devido ao tempo de vida dos seus equipamentos ser muito curto. Precisa de ser refinanciada constantemente para comprar máquinas. Devido ao sal, muitas máquinas estragam e, se formos a fazer com que cada produtor compre o seu equipamento, não haverá produção, porque as máquinas são caras. Muitas empresas ficaram estagnadas, sem produzir as toneladas que deviam. O crescimento demográfico também contribuiu para esta diferença. A população aumentou e, como é logico, o consumo também. Actualmente, podemos aumentar a capacidade de produção das indústrias e abrir novas salinas para combatermos este défice.


Quais as províncias que produzem sal?

A produzir eficazmente estão o Bengo, no município do Ambriz, Benguela e Namibe. Estas produzem sem restrições. Já o Kwanza-Sul produz com muitas dificuldades, mas queremos que todas as províncias costeiras produzam.


Qual é a relação dos empresários com os bancos?

A banca tem alguma carência de quadros que possam analisar projectos estruturantes nas pescas. Durante algum tempo, era o ramo das pescas, através do Fundo de Desenvolvimento, que tinha estes quadros que analisavam os projectos se seriam viáveis ou não. No entanto, a banca não tem estes técnicos especializados para fazer o estudo dos projectos. É preciso que os funcionários bancários percebam a cadeia produtiva do sal e, enquanto não perceberem, fica difícil fazerem análise de projectos do género. Mas também é verdade que há empresários que não estruturam bem os projectos. Temos de ser autocríticos. Os empresários devem apresentar projectos devidamente estruturados. Temos limitações neste sentido e tudo temos feito para ultrapassar estas dificuldades com a contratação de empresas de consultoria financeira.


Os bancos estão abertos a ceder créditos, mas os juros exigidos não são favoráveis aos produtores. Quem produz sal precisa de um tempo de reembolso a longo prazo de, pelo menos, 25 anos e os juros têm de ser bonificados. É preciso a definição de uma linha de crédito.


Essas informações são passadas ao BNA como entidade reguladora?

Sim, têm sido passadas. Temos tido vários encontros nos vários escalões da banca e entidades governamentais. O Ministério das Pescas tem sido também interlocutor para levar a mensagem aos bancos.


Que propostas endereçam aos bancos?

Que criem linhas de créditos específicas. Também é importante a facilitação do acesso aos créditos. Um pedido de crédito que entra num banco, em Benguela, ou noutra província, deve ter uma decisão num espaço de um mês. Os funcionários bancários e os técnicos têm de ir ao encontro dos produtores para ver quais os problemas, verificar o potencial da empresa, falar com os empresários. A produção de sal é uma actividade rentável, mas os bancos devem percebê-la melhor, para permitir que a taxa de juro seja baixa.


A qualidade do sal em Angola é boa?

O sal branquinho não quer dizer que seja o melhor. Com o projecto de produtos feitos em Angola, as pessoas estão a primar pela qualidade e os produtos, antes de chegarem aos supermercados, são submetidos a análises laboratoriais. Os índices de humidade são muito altos. Essa humidade só vai diminuir quando começarmos a fazer pacotes de um quilo para serem colocados nos supermercados.


Como vê o desaparecimento de salinas em Luanda?

O desaparecimento das salinas de Luanda era inevitável devido ao movimento demográfico e migratório. Estamos a lutar para que o Governo defina reservas fundiárias para a produção de sal fora das zonas de residências. Está comprovado que a produção de sal em zonas residenciais não pode avançar. As salinas não coabitam com o ser humano por causa da produção de lixo e outros meios que perigam a qualidade do produto. Quando existirem pessoas a residir junto às salinas, poderá haver muito sal roubado que chegará aos mercados informais sem iodo, o que provoca diversas doenças.

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