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Actores Nelo Jazz e Quim Fasano juntos há 11 anos

Dupla famosa, mas reclama apoios

Por Onélio Santiago  /  Foto Mário Mujetes


Por trás da dupla engraçada, conhecida pelo público como ‘Papa Ngulo’ e ‘Chico Caxico’, estão homens insatisfeitos com o tratamento dado aos fazedores de teatro. Além de criticarem quem fala mal sem saber as dificuldades por que passam os actores, Nelo Jazz e Quim Fasano lamentam a falta de salas de exibição e que sejam só os músicos a ser considerados artistas.


Aos 35 anos, Quim Fasano (mais conhecido por ‘Chico Caxico’) é o único actor angolano cujo nome consta num livro que reúne algumas das principais referências da história do teatro mundial, desde a Era antes de Cristo até aos nossos dias.


Editada pelo britânico Simon Williams, sobre a chancela da Universidade de Cambridge, a obra foi publicada em Fevereiro de 2015, tendo como título ‘The Cambridge Encyclopedia of Stage Actors and Acting’, que, em tradução livre, poderia corresponder a ‘Enciclopédia da Cambridge sobre Cenas, Actores e Acção’.


Porque então começar uma reportagem sobre uma das duplas mais engraçadas do teatro angolano com referência a um livro escrito em inglês? “Esta enciclopédia é tudo. É uma chapada sem mão aos responsáveis do Estado que não vão ao teatro, não fazem nada para que esta arte melhore, mas estão sempre a criticar a péssima qualidade de alguns grupos”, responde Quim Fasano, que deixa no ar outra pergunta: “Se os grupos que fazem teatro em Angola não têm qualidade, porque é que, lá fora, são bem referenciados, conquistam troféus e são alvo de críticas favoráveis?”


À reclamação de Quim Fasano, o colega Nelo Jazz acrescenta aquilo a que chama de “o grande problema” do teatro angolano: “a falta de salas”. Conhecido pelo grande público como ‘Papa Ngulo’, Nelo Jazz, de 42 anos, recorda-se de “inúmeros” grupos teatrais que foram ao exterior com meios próprios para representar Angola, mas aos quais foram negados inclusive “apoios institucionais”. “Podemos enviar uma carta a um ministério, pedindo um certo apoio, somos simplesmente ignorados.


Nem sequer se dão ao trabalho de ligar só para dizer que não têm como ajudar”, lamenta Nelo Jazz, que salienta que não se trata de um “problema” vivido apenas pela dupla. “Os fazedores de teatro não são tidos nem achados. São encostados sempre à parede. A partir do próprio Estado, fica-se com a sensação de que só é artista quem é músico.”


Reforçando a afirmação do colega, Quim Fasano alerta para que não se confundam estas declarações com um acto de “mendicância”. Contudo, para este actor, pelo historial da dupla, “não é compreensível” que o Estado “não tenha criado um sistema que lhes facilite o auto-sustento”.


Quim Fasano esclarece que a dupla não está a pedir que lhes ofereçam casas, carros ou dinheiro. “Queremos apenas que nos criem algumas facilidades”, explica, adiantando que, por não ter um rendimento mensal fixo, não está em condições de adquirir, por exemplo, uma casa no Kilamba. “E o Estado devia criar políticas para este tipo de classes.”


‘Desconhecidos’

A história da dupla ‘Papa Ngulo’ e ‘Chico Caxico’, como eles próprios admitem, é “uma grande obra do acaso’. Tudo começou em 2005, quando a Orion, em parceria com a TPA, organizou um ‘casting’ para seleccionar dois actores que fizessem papéis de espertalhões sempre dispostos a violar a lei. Com a iniciativa, pretendia-se, em gesto de paródia, promover valores de cidadania.


Nelo Jazz candidatou-se a uma vaga para o papel de ‘Papa Ngulo’, enquanto Quim Fasano tentou a sorte no papel do ‘Chico Caxico’.
Entre os dois actores, que ainda não eram amigos, apesar de se terem conhecido num projecto teatral da realizadora Maria João Ganga, ninguém sabia que o outro também estava a disputar uma vaga.


Como o ‘casting’ era a eliminar, a dada altura, Nelo Jazz e Quim Fasano encontraram-se na sala de audiências. Sem qualquer guião nem ensaio, o realizador/guionista, o brasileiro Eduardo Camarão, pediu que os dois criassem uma cena em que Quim Fasano era o ‘caxico’ de Nelo Jazz.


O entrosamento de ambos resultou numa boa ‘química’ que, ainda a meio da encenação, o realizador/guionista interrompeu-os e a plateia começou a aplaudir e a assobiar. Estava encontrada a ‘dupla perfeita’.


Passados alguns meses, o ‘Angola em Movimento’, um programa que era exibido às 21 horas, às segundas-feiras na TPA, passou a reservar cerca de 10 minutos para a rubrica ‘Papa Ngulo’ e ‘Chico e Caxico’.


A iniciativa resultou de tal forma que Nelo Jazz e Quim Fasano nunca mais se separaram, mesmo depois do fim do programa em 2011. A dupla continua até hoje, animando festas, palestras, e diversas cerimónias de instituições públicas e privadas, além de possuir, desde Fevereiro, um programa de humor e sátira na Rádio MFM nas manhãs de terças e quintas-feiras.

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