PT

Candidatura à UNESCO sem contestação, mas há críticas ao método

Investigadores divididos sobre Mbanza-Congo




Investigadores culturais respondem ao apelo da ministra da Cultura para que encetassem contactos com universidades de outros países interessados que a antiga capital do reino do Congo seja elevada a património da humanidade. O NG procurou saber junto de investigadores angolanos que contributos produzem que possam convencer a UNESCO.


O professor de História das artes africanas Patrício Batsikama lamenta “não ter sido ‘tido nem achado’” na última mesa-redonda internacional sobre Mbanza-Congo, até porque garante ter sido ele a levantar a questão sobre ‘A democracia no antigo Kongo’, tema discutido nesse fórum e apresentado por um outro investigador. Patrício Batsikama sugere, entretanto, que, para “ajudar a enriquecer o projecto” de Mbanza-Congo, de modo a convencer a UNESCO a elevar a cidade histórica a património da humanidade, “é preciso” que o Ministério da Cultura envolva “um maior número de especialistas”. O investigador cultural considera-se uma “peça indispensável”. Já escreveu quatro livros e seis artigos sobre o reino do Congo e fica satisfeito pelo Centro Histórico de Mbanza-Congo ter obedecido à sua sugestão, embora não lhe tenha sido reconhecido o mérito.


Além de historiador, Patrício Batsikama é antropólogo político e recebeu o apoio de um banco para fazer pesquisa sobre o reino do Congo e fez uma formação universitária na Europa sobre Património Cultural, pago pela União Europeia. Ao NG, lamenta que não haja programas pedagógicos e de socialização sobre Mbanza-Congo. Por isso, sugere que se escrevesse não só em português, mas também em línguas nacionais para todos da zona saberem do que se trata e que possa servir de orgulho nacional. Garante o historiador, algumas crenças em Mbanza-Congo sentem-se “discriminadas”.
Outro pesquisador cultural, João Ngola Trindade, prefere questionar o papel do Ministério da Ciência e Tecnologia. “Que política tem o sector para que os pesquisadores/cientistas sociais possam desenvolver trabalhos?”, questiona-se, e pergunta se “ainda há orçamento para que projectos de pesquisa sejam realizados”.


O historiador observa que quem esteve na III Mesa-Redonda, em Mbanza-Congo, deveria ter feito estas e outras perguntas à ministra da Cultura.
Por exemplo, “o que faz o Centro Nacional de Investigação Científica ou que papel deveria desempenhar neste projecto de Mbanza-Congo?”. “Eu faria estas perguntas, se tivesse ido àquele encontro”, conclui, reconhecendo limitações para emitir contributos substanciais sobre o dossier. “Apesar de ser formado em História, não sou estudioso do Reino do Kongo”, reconhece.


Já o especialista experiente no Comité Internacional do Património Cultural, Simão Souindoula, garante que Mbanza-Congo “tem tudo” para ser elevado a Património da Humanidade, já que a zona serve de pilar, não só para Angola, mas para os dois Congos e o Gabão, o que justifica a importância da velha cidade.


O historiador, que desenvolveu estudos sobre a cultura imaterial em Mbanza-Congo, lembra que foram “problemas técnicos que estiveram na base da não elevação a património da humanidade, mas confia que isso “não vai tardar”.


Simão Souindoula garante que há interesses entre investigadores dos referidos países, obedecendo ao apelo da ministra Carolina Cerqueira, durante abertura da última mesa-redonda.


O historiador da UNESCO para a área de classificação de sítios africanos a património mundial, o nigeriano Charles Akibodé, em declarações à Angop, entendia ser “injusto “uma potência económica regional como Angola, com uma imensa dimensão geográfica, careça de um sítio classificado como património da humanidade”.O técnico reconheceu que “em Angola está o coração de um império histórico, o reino do Congo, cuja capital foi Mbanza-Congo”, por isso, para o especialista, a inscrição da cidade significaria “uma justiça para o país e para África em geral”.


Contar a História

Patrício Batsikama defende que é na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, onde lecciona História, que se devia começar a pensar em contar a história de Angola.


Entende que, para tal, devia ser criado um centro de pesquisa, onde os resultados poderão servir de referência para se começarem a recolher dados e assim pensar-se em escrever a história de Angola. O reino do Congo, além de Angola, é do interesse de mais três países: a RDC, o Congo e o Gabão. No discurso de abertura da III Mesa-Redonda Internacional sobre Mbanza-Congo, a ministra da Cultura sugeriu que os investigadores, a título pessoal, deveriam procurar acordos entre as universidades desses países, interessados na investigação científica sobre o Reino do Congo e as suas comunidades, já que as universidades dos três países mostraram interesse, através de planos de investigação sobre a cidade.


Carolina Cerqueira defende ser “fundamental” promover parcerias internas e com o exterior, que potenciem a partilha interdisciplinar de conhecimento sobre as mais diferentes matérias da história e da cultura material e imaterial da região e do povo do Congo, cuja complexidade “exige uma abordagem multidisciplinar”.

» LEIA TAMBÉM

» Deixe o Seu Comentário