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Fidel Castro:

Um duro revolucionário com os olhos no mundo




Fidel Castro morreu aos 90 anos. Liderou Cuba entre 1959 a 2008. Foi advogado, revolucionário, comunista, nacionalista, abraçou as causas das independências, sonhou levar a revolução a todo o mundo, enfrentou potências mundiais e manteve o poder numa ilha pequena, com apenas 11 milhões de habitantes. Ajudou Angola a alcançar a independência.


A – ANGOLA. A história de Angola seria outra se não houvesse a intervenção de Cuba. Fidel Castro não hesitou na hora de apoiar o MPLA. A 11 de Novembro de 1975, tinha tropas a travar os avanços da África do Sul, perto do rio Kwanza, e do antigo Zaire, em Kifangondo, a norte. O próprio Fidel liderou a batalha do Cuito-Cuanavale, em 1988, à distância de 10 mil quilómetros, montando um quartel-general, em Havana, com mapas de Angola em cima da mesa e um sistema complicado de comunicações. Ao todo, Fidel enviou para Angola mais de 40 mil combatentes, além de milhares de cooperantes na saúde e na educação.


B – BATISTA, Fulgêncio. Derrubado por Fidel. Foi presidente, graças a um golpe de Estado, entre 1940-44. Deixou o poder, mas regressou, de novo com um golpe apoiado pelos EUA, entre 1952 até ser derrubado pelos revolucionários liderados por Fidel. Impôs um regime ditatorial, dominado por empresários norte-americanos ligados aos casinos e ao tráfico de drogas. Morreu em 1973 no exílio.


C – CIA. A Central Intelligence Agency, os serviços secretos dos EUA, tentou matar Fidel mais de 638 vezes, revela um relatório interno. Entre elas, os agentes da CIA tentaram um charuto envenenado, enviaram uma prostituta para o matar, ofereceram canetas tóxicas. Algumas das tentativas foram por iniciativa própria, outras com o consentimento dos presidentes dos EUA.


D – DIREITOS. Fidel foi acusado de constantemente violar os direitos humanos. Ele próprio reconheceu, com arrependimento, ter enviado para campos de reeducação homossexuais. A liberdade de imprensa foi sempre condicionada. A liderança cubana não teve contemplações para activistas que contestam o regime, colocando-os na prisão ou condenando-os ao exílio. Em contrapartida às contestações, Cuba argumenta que não tem fome, não tem pobres, nem miséria.


E – ESCOLARIDADE. Um dos maiores sucessos na sociedade criada por Fidel. Todos os cubanos, sem excepção, estudam de borla. A escolaridade a 100 por cento estende-se à solidariedade. Cuba recebe, todos os anos, bolseiros vindos de dezenas de países, entre eles, Angola. Toda a gente sabe ler e escrever. Fidel formou-se na Universidade de Direito de Havana.


F – FILHOS. São 11 conhecidos, mas as notícias, entre rumores e casos levemente confirmados, indicam que o líder cubano teve outros. Era assumidamente um sedutor. Oficialmente, casou-se com um antiga colega de escola, Mirta Diaz-Balaart, uma jovem abastada. A mais famosa esposa acabou por ser Alina Fernandez, também proveniente de uma família rica, apoiante da Revolução, mas que, depois do divórcio, foi uma das vozes mais críticas do regime. A relação mais longa, que deu em cinco filhos, foi com Dalia Sotto del Valle, antiga colega numa campanha de alfabetização.


G – GUEVARA, Che. Amigo, companheiro de armas, líder feroz na Sierra Maestra, Ernesto ‘Che’ Guevara conheceu Fidel, quando fez uma incursão pela América Latina, depois de ter concluído o curso de Medicina. Indignado com a miséria e com a injustiça que encontrou, aliou-se a Fidel na luta armada, em Cuba, apesar de ser argentino. Foi ministro da Economia, mas o fervor revolucionário levou-o a abandonar o poder e procurar replicar a revolução cubana em África (esteve a dirigir tropas no Congo) e acabou por morrer, em 1967, na Bolívia. Tornou-se um ícone da revolução em todo o mundo e um mito em Cuba.


H – HISTÓRIA – Fidel foi julgado por atentar contra a pátria no tempo da ditadura de Fulgêncio Batista. Defendeu-se sozinho em tribunal e lançou uma frase que ficaria na História, antes se ser condenado a 15 anos de prisão: “A História me absolverá”. Fidel chegava ao estrelado político aos 27 anos. Nasceu a 13 de Agosto de 1926, na aldeia de Borin.


I – INDEPENDÊNCIAS. Tal como viria acontecer com Angola, a partir de 1974, Fidel Castro nunca hesitou no apoio às independências de África. Financiou movimentos de libertação de inspiração marxista, deu formação técnica e militar, enviou combatentes para África. Na Argélia, teve um aliado ideal: o haitiano Franz Fannon que chegou a ministro e tornou-se um ideólogo, inspirado por Fidel, dos independentistas africanos.


J – JAIMANITAS. Nome porque é conhecida a casa onde Fidel dormia mais vezes. Os serviços secretos cubanos chamavam ‘Punto Cero’. A casa, modesta, fica num subúrbio de Havana, onde antes era um campo de golfe. Tem uma forma de ferradura e só foi vista em 2001, quando uma ex-namorada resolveu vender as imagens a uma cadeia de televisão. Tinha uma piscina, uma sala grande com uma mesa, um quarto e uma cozinha e foi aqui que Fidel viveu os últimos 10 anos e recebia convidados.


K – KHRUSHCHOV, Nikita. Foi o líder soviético que Fidel teve relações mais complexas. Quando Fidel assumiu o poder em Cuba, Khrushchov já era líder da URSS, mas sempre desconfiou do voluntarismo dos cubanos. No entanto, aproveitou a ajuda que deu a Cuba para pressionar os EUA e esteve na origem da crise dos mísseis que quase atirou o mundo para uma guerra nuclear.


M – MÉDICOS. Ao lado da educação, Fidel apostou tudo na saúde. Hoje, os médicos cubanos são o maior ‘produto’ de exportação: são mais de 30 mil que trabalham em 600 mil missões em 68 países, incluindo Angola. Forma mais de 1.500 médicos estrangeiros por ano. Quando Fidel chegou ao poder, em 1959, apenas 10 por cento da população tinha cuidados de saúde. Hoje toda a gente tem um médico. Cuba é o único país da América Latina sem desnutrição e único que faz investigação médica, em que já conseguiu eliminar a transmissão do vírus VIH de mãe para filho.


N – NAMÍBIA. A independência da Namíbia entra na ‘colecção’ de vitórias de Fidel. Ao lado de Angola, Cuba obrigou a África do Sul a aceitar a independência namibiana. Simultaneamente, levou ao fim do regime do ‘apartheid’ sul-africano. Nas batalhas no terreno e na diplomacia, Fidel ganhou um amigo: Nelson Mandela.


O – OCHOA, Arnaldo. Um dos maiores reveses de Fidel Castro. Arnaldo Ochoa foi um herói da Revolução, um dos comandantes de um outro general mítico cubano: Camilo Cienfuegos. Caído em desgraça em 1989, Ochoa foi condenado e executado por tráfico de droga. De nada adiantaram os apelos internacionais. Numa entrevista dada ao jornalista Ignacio Ramonet, depois da execução, Fidel não escondeu a mágoa: “Não tínhamos alternativa, porque o país foi exposto a grave risco e tínhamos de ser duros, tínhamos de sê-lo ainda mais com pessoas das nossas fileiras que, dessa forma, comprometeram o país e a revolução”. Ochoa chegou a liderar as tropas em Angola e na Etiópia.


P – PATRIMÓNIO. Insistentemente, a revista Forbes, e outras do mundo ocidental, garante que Fidel era um dos homens mais ricos do mundo, com uma fortuna avaliada em muitos milhões de dólares. O líder cubano nunca mostrou sinais dessa riqueza e dizia que eram apenas campanhas que somavam as contas de toda a Cuba, atribuindo que ele seria dono de tudo.


Q – QUARTEL DE MONCADA. A primeira grande tentativa de derrubar o regime foi em 1953. O jovem advogado Fidel Castro, de 27 anos, com um grupo de 165 cubanos, tentou assaltar o quartel da Moncada. A ideia era ficar com o armamento e distribuir à população. A maioria do grupo morreu. Fidel foi preso e condenado a 15 anos de prisão.


R – ROUPA. As revistas ocidentais classificam Fidel como o chefe de Estado mais mal vestido do mundo. De facto, o líder cubano gostava de andar de farda verde-oliva, do mesmo estilo que começou a usar em 1956 quando iniciou a guerrilha. Justificava a roupa com a “falta de paciência” para usar gravata. Fora a farda, usava uma camisa cubana, do tipo balalaica. De luxos, tinha o charuto cubano Cohiba que foi o seu principal ‘marketeer’.


S – SIERRA MAESTRA. Lugar mítico da guerrilha que tomou de assalto o poder em Cuba. De cavalo, com arma ao ombro, Fidel Castro começou por dirigir um grupo de guerrilheiros, chamados ‘barbudos’, a partir desta serra. O grupo ganhou o apoio do povo que alimentava a guerrilha e forneceu muitos combatentes. Quase no início, em 1956, teve uma derrota, mas recuperou e quase três anos depois tomou o poder em Havana.


T – TOTALITARISMO. Foi na hora da morte de Fidel que mais se distinguiram as clivagens ideológicas. Por um lado, o líder cubano é acusado de ter sido um ditador sanguinário que impôs um regime ditatorial. A essas acusações, Fidel respondia que toda a gente participa na vida política, mesmo com um único partido. Toda a gente pode ser candidata a cargos dirigentes e toda a gente é obrigada a votar. À ideologia marxista, Fidel juntava as ideias revolucionárias de José Marti que defendia a união da América Latina como um único país.


U – URSS. As relações com a União Soviéticas sempre foram distantes, apesar de Fidel ser um marxista-leninista assumido. Em plena guerra-fria, os dois países usaram a ideologia para se ‘suportarem’. A URSS fornecia petróleo e alimentos a Cuba. Havana mantinha uma pressão sobre os EUA, a maior potência mundial. Entre os dois regimes, separava-os a estratégia de como exportar o comunismo. Foram sobretudo aliados em 1961 quando Cuba esteve quase a ser invadida por dissidentes apoiados pelos EUA. Em diversas épocas, Fidel foi crítico de Moscovo.


V – VENEZUELA. Talvez o país latino-americano que Fidel mais influenciou e mais apoiou. A ascensão de Hugo Chávez ao poder levou o país a aderir à ideia socialista. Desde a primeira hora, o líder cubano apoiou com o envio de médicos, professores e equipamento agrícola. Em troca, recebia petróleo a preços reduzidos. Chávez era visita frequente do ‘compañero’ Fidel.


W – WASHINGTON. Fidel Castro suportou um bloqueio económico imposto pelos EUA, fintou 638 tentativas de assassinato, aguentou tentativas de invasão à pequena ilha e enfrentou pressões de todo o tipo. Sobreviveu a 11 presidentes dos EUA, entre democratas e republicanos. As relações só desanuviaram com as cedências de Cuba à abertura económica, mas já com o irmão de Fidel, Raúl Castro, no poder. E com a vontade de Barack Obama.


Y – YANKEES. Desde cedo no poder que Fidel usava o termo pejorativo ‘yankees’ para se referir aos EUA. Impulsionada pelo Partido Comunista Cubano, com o apoio dos partidos comunistas da América Latina, houve um hino que se tornou viral e que tem frases como “la lucha guerrilhera por América Latina” e “yankees hijos de p… só tienem de morir”.


Z – ZAPATA. Foi a maior crise diplomática que colocou o mundo à beira de uma guerra. Por ordem do novo presidente dos EUA, John Kennedy, os EUA preparam mais de 1.200 exilados cubanos para invadir o país, através da Baía dos Porcos. Kennedy chamou-a a ‘Operação Zapata’ que acabou por constituir uma das maiores derrotas militares dos EUA. As tropas cubanas já estavam prevenidas e receberam apoio do bloco do Leste europeu. Logo a seguir, a URSS enviou submarinos nucleares para a costa de Cuba ameaçando os EUA.

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