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Último censo agrícola foi feito em 1971

“Dados desactualizados”

Por Osvaldo Quilo   /  Foto Mário Mujetes


Apesar de a agricultura ser considerada ‘tábua da salvação’ da economia em Angola, não se sabe o número concreto da produção desde 1971, alerta o economista agrário Fernando Pacheco. O Governo garante preparar as condições para a actualização dos dados agrícolas e pecuários.


Com a queda “brusca” do preço do principal produto de exportação, o petróleo, que motivou a desaceleração da economia, o Governo decidiu apostar mais na agricultura, implementando políticas para aumentar a produção e tentar tornar o país cada vez menos dependente das importações. Apesar de se revelarem, quase sempre, os resultados de cada campanha agrícola, não se consegue dizer ao certo o volume da produção, o número de agricultores, as zonas de cultivo e a criação de animais, desde 1971, quando se realizou o Censo Agrícola e Pecuário, financiado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). A contestação parte do economista agrário Fernando Pacheco: “Todos estão com os olhos virados na agricultura, para salvar a crise económica, mais ninguém sabe, pelo menos, quantos agricultores existem no país. Isto é muito triste, assim não há qualquer possibilidade de crescimento”, lamentou.


Nos últimos quatro anos, o Governo, durante a elaboração do Orçamento Geral do Estado (OGE), propôs a realização do Censo Agrícola e Pecuário, por se tratar de um vector “fundamental da produção e distribuição de produtos”, mas, “infelizmente, nunca é concretizado”. “É sempre adiado” para outro ano, por razões que “nunca são reveladas”, segundo Fernando Pacheco. “Não é por falta de dinheiro, porque o Governo gasta muito dinheiro em coisas sem importância”, conclui.


Sem avançar datas, o secretário de Estado da Agricultura, Amaro Tati, garante que estão a ser criadas todas as condições para a realização “com êxito do segundo Censo Agropecuário. “O censo é um processo imprescindível, estamos a preparar cautelosamente. Vai permitir-nos saber qual é a real dimensão da agricultura. Os resultados da única contagem feita no final dos anos 1960 e princípio dos anos 1970 já estão ultrapassados”.


No entanto, o Instituto Nacional de Estatística (INE) garante que o censo vai ser realizado em 2017, num trabalho que envolve ainda o Ministério da Agricultura e o apoio técnico e financeiro do Banco Mundial e da FAO.


De acordo com os planos do INE, o Censo vai abranger apenas algumas províncias: Uige, Malanje, Benguela, Huambo e Kwanza-Sul. A fase-piloto realizou-se em Junho passado.


Todo o processo vai decorrer em quatro anos. Recentemente, o ‘Valor Económico’ avançou que a FAO já tinha disponibilizado 200 mil dólares para a realização do Censo.


SEM REPETIÇÕES

Amaro Tati lembra que Angola já viveu momentos económicos difíceis, que foram ultrapassados com a agricultura. Dá como exemplo os anos 1980 em que houve uma crise financeira profunda, que obrigou o Governo a criar um departamento de política agrária, que veio impulsionar a produção, empurrando cidadãos para o campo. Uma política que funcionou, mas que Fernando Pacheco, antigo director do referido departamento ligado ao MPLA, considera reprovável. “Não devemos valorizar a agricultura apenas quando o petróleo está em declínio. Ontem já foi assim e hoje estamos a tentar remar o barco para a mesma maré.”


Como docente de Economia Agrária e Desenvolvimento Rural, na Universidade Lusíada de Angola, Fernando Pacheco aconselha a que ninguém se iluda quando especialistas estrangeiros vêm a Angola dizer que os solos são totalmente férteis, porque “têm outras intenções, mas que devem “ preocupar-se mais com a investigação dos solos”. “Falta conhecimento e investigação em Angola. Se procurarmos saber quanto se gastou com a investigação científica e assistência técnica na área da agricultura, vamos encontrar valores extremamente baixos.”


Fernando Pacheco defende a construção de fábricas de suplementos da agricultura, como ração e instrumentos de cultivo, em zonas que representam grande escala de produção.

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