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Seguidores defendem que é afirmação da identidade cultural

Estilo africano “não é moda”

Por Pihia Rodrigues   /  Foto Santos Samuesseca


A identidade africana vem ganhando espaço nos últimos tempos entre os angolanos, sobretudo no modo de vestir. Quem apoia a afirmação africana discorda que o estilo seja considerado moda e argumenta com manifesto dos direitos e liberdades e dos valores culturais.


Cresce a tendência a afirmação da identidade africana com elementos materiais e imateriais. Esta afirmação é manifestada em opiniões, postura, cabelo, roupas, até mesmo em designações de pessoas e instituições, que pressupõe um estilo de vida.


As principais formas são as vestes e o cabelo. Está na moda encrespar o cabelo natural, outros utilizam o milenar penteado ‘dreadlocks’ (famoso ‘rasta’) como elementos da africanidade.


O professor universitário Isaac Paxe, que influenciou a família a seguir “livremente” a identidade africana, discorda que a forma de se apresentar seja considerada moda ou por ser, como muita gente acredita, mais económico. “É um traço de identidade”, afirma, convicto. Como exemplo, recorre ao cabelo. De acordo com o docente, não tem como ser moda porque o único procedimento é deixá-lo crescer. Defende que é uma questão de manifesto dos direitos e liberdades. Recorda que esses direitos foram coartados antigamente quando se quisesse apresentar de cabelo grande, por exemplo, havia mais censura: na rua era a Polícia que perseguia para cortar, nas escolas eram os professores.


A ideia de que a roupa africana e o cabelo natural sejam mais simpáticos para os bolsos não o convence. Isaac Paxe convida a reflectir sobre a aquisição do próprio material de base, os panos africanos, que são importados da Europa onde se produzem réplicas das estampas africanas. Convida igualmente a apreciar os preços dos óleos para o cabelo, que também são importados, já que “nem conseguimos extrair naturalmente a manteiga de coco e óleo de karité” que são produtos essenciais.


O ex-concorrente do Big Brother Angola, Tomás Kissamá, que se tornou famoso pelas exibições de vestes africanas no ‘reality show’ da DStv, discorda igualmente que o uso dos trajes esteja associado a factores económicos. Na verdade, o estilo que adoptou vem muito antes da projecção televisiva. O jovem já organizava, desde 2010, festas africanas no Capitólio, Ilha de Luanda, e, nessa altura, eram raros os que apareciam de roupa africana. Ele já as usava desde os sete anos por influência da avó que era costureira. Hoje defende que o estilo africano é o afirmar da identidade, lembrando as centenas de anos de privação da liberdade por causa do colonialismo em África, particularmente em Angola.


O designer de moda, que está em processo de internacionalização da sua marca em Portugal, entende que, embora o colono implantasse a cultura ocidental por muito tempo e o fácil acesso aos meios audiovisuais, o ‘bicho’ da identidade ainda se manteve, por isso encontra “essa ‘avalanche’ de apresentação do estilo africano”. Lamenta que só se use recentemente depois dos norte-americanos, influenciados por artistas como os nigerianos Davido e P Square, que se impuseram com o seu estilo no mundo. Tomás Kissamá prefere pensar que se trata do “resgate da cultura” ao invés de moda.
Isaac Paxe lembra da função protectora do cabelo na cabeça, num país de clima tropical e com raios solares. Proteger o couro cabeludo “é um benefício extremo da saúde”, já que rapar a cabeça a deixa vulnerável. Outra das vantagens para o cabelo natural, e recomendado a meninas, é evitar produtos químicos que podem originar cancro ou outros males.


Sobre as vestes, entende ser “uma aberração num clima tão quente, as pessoas terem de andar de fato e gravata, de baixo do sol ou no candongueiro simplesmente porque se quer estabelecer numa convenção europeia sem ter em atenção que o próprio europeu muda de vestimenta em função da estação no ano”.


O estereótipo do professor universitário de fato e gravata, de acordo com os padrões ocidentais, há muito que encontrou barreiras em Isaac Paxe: “a única relação que tenho com a universidade é que cumpro com os objectivos com meus conhecimentos científicos e a minha capacidade académica”.


Tomás Kissamá defende que o Ministério da Educação deve exigir que os alunos se apresentem um dia por semana de traje africano na escola, sobretudo no ensino de base para incutir o valor da identidade. O artista apresentou ainda, no sábado passado, um evento cultural a que denomina ‘Bazar do Kissamá’, para “resgatar o conceito africano”. O evento reúne várias manifestações artístico-culturais africanas como a música, dança, exposições de bijuterias, quadros e colecções do próprio Kissamá. Nesta edição, contou com diplomatas dos EUA, Cuba e Israel.


Ndaka yo Wiñi é dos artistas que habituou o público vê-lo de corpo e espírito tradicionais: vestes, cabelo natural, cabaça nas mãos, uma fonte de estímulo, sempre que bebe do líquido desse recipiente, conta o próprio, sente que está a “beber conhecimento”, na medida em que vai transmitindo a sabedoria dos provérbios africanos através do canto e com instrumentos que reproduzem o som ambiente do mato. Apaixonado por hábitos e costumes, ao NG, confessa que já foi chamado de “feiticeiro” por causa da forma como se apresenta. Mas desculpa a sociedade por ter “um nível de cegueira mental, causada pela má conduta, ou seja, por uma transmissão educativa que oculta o lado conservador dos valores”.


Sem ocasião

O estilo africano parece cada vez mais não ter ocasião preferida, pode actuar-se em ocasiões formais como informais e até já é traje de noivos. Em conferências de alto nível, já se torna indispensável. De acordo com especialistas da moda, a vantagem do estilo é a versatilidade.


Há quem já use no dia-a-dia: no serviço, na escola, universidade, etc. Outros preferem adereços como colares, pulseiras, turbante e gravata. Quem trabalha com esses elementos é a artesã Isabel Miguel, de 26 anos, que forra panos africanos sobre acessórios reciclados.


Em entrevista ao Valor Económico, Isabel Miguel contou que ambiciona chegar ao patamar de conceituadas estilistas, como Nadir Tati, e deseja ver figuras públicas a usarem peças e acessórios com panos africanos para se seguir a moda.

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