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Gelson e Ary Papel, à aventura pela Europa

O imenso orgulho das famílias

Por Raimundo Ngunza   /  Foto Santos Samuesseca


Ary Papel e Gelson já rumaram para Lisboa para onde vão jogar pelo Sporting. Em Luanda, deixaram as famílias orgulhosas e felizes, que contaram ao NG como são os dois futebolistas fora dos relvados.


São jovens e deixaram marca no futebol angolano. Foram as maiores ‘estrelas’ do campeonato. Juntos marcaram 35 golos e contribuíram para a vitória do 1.º d’Agosto. O sucesso abriu-lhes as portas para o futebol europeu.


Jacinto Muondo Dala e Manuel David Afonso, mais conhecidos apenas como Gelson e Ary Papel, respectivamente já são o orgulho dos familiares, que não escondem, em exclusivo para o NG, a alegria de os ver alcançar o sucesso.


A casa de Maria Teresa Francisco António, mãe do Ary Papel, fica situada junto ao mercado dos Correios, a maior praça de céu aberto de peças e acessórios de veículos. E não engana. Quem passa pela ruela, o enorme desenho do jogador na parede do quintal e a famosa ‘roulotte’ com as cores do 1.º de Agosto quase mostram onde vivem os parentes do Ary Papel. Maria António, vestida com a camisola 30 do 1.º de Agosto, confessa que nem contava com o salto na carreira do filho, uma vez que cresceu rodeado de delinquência e de bebidas alcoólicas. Mais uma razão para se sentir mais orgulhosa com o novo passo do filho, agora com 22 anos. Na conversa, soltou algumas lágrimas, recordando que chegou a sentir “mau olhar por parte de algumas pessoas do bairro que faziam tudo” para que o seu filho “não tivesse sucesso”, mas com “muita perseverança e educação”, conseguiu. Maria António descreve Ary Papel, o quarto de nove filhos, como um menino “obediente”.


Divorciada do marido há anos, a mãe de Ary Papel sublinha que a igreja jogou um papel importante na educação dos filhos e sempre desejou que o filho jogasse fora de Angola. Destaca que Ary Papel possui uma irmandade muito forte com os amigos, conta anedotas, é brincalhão, gosta de dançar e um fã incondicional de Cristiano Ronaldo. Emocionada, Marcelina António Gaspar solta algumas lágrimas e, em poucas palavras, diz que o irmão é um exemplo para a família, pelo facto de nunca ter tido um comportamento antissocial. Já Ilídio David Afonso, 35 anos, o irmão mais velho, conta ser um sonho de qualquer atleta jogar na Europa e numa grande equipa portuguesa e acredita no sucesso e nas capacidades desportivas do irmão.


Ambiente humilde

É na zona da Canjala, bairro da Terra Vermelha (Kassequel), Luanda, que se encontra a residência de Azenate Muondo Dala, 68 anos, mãe do Jacinto Dala Muondo, o Gelson. Chegar aqui é quase um suplício: é preciso fintar buracos, charcos, ruelas e pequenas lagoas, para se conseguir localizar a família de Muondo Dala. A mãe passa a maior parte do tempo na lavra, regressando ao Kassequel, por norma, aos sábados.


Para o irmão, Martinho Kimuanga, de 29 anos, falar do irmão é a “coisa mais fácil”. “O comportamento dentro do campo reflecte-se na sua vida privada”. Gelson cresceu neste ambiente humilde e sempre sonhou ser um grande jogador. Martinho conta que, na 4.ª classe, o professor mandou os alunos fazer uma redacção a falar do futuro. Gelson escreveu que pretendia ser um futebolista de sucesso em Angola e no estrangeiro. Sem modéstias, Martinho Kimuanga sublinha que o talento em tratar bem a bola de futebol vem de família e que foi acompanhando a evolução do irmão até atingir o escalão sénior. Apesar de a mãe não entender de futebol, quando está disponível, senta-se para ver o filho jogar e fica toda emocionada. Às vezes, chora quando o filho sofre uma falta. Ao irmão, Martinho Kimuanga, tem desejado todo o sucesso e já o aconselhou a “ter paciência, muita humildade e a respeitar os treinadores”. Beatriz Paulo e Antónica Caculo, ambas cunhadas de Gelson, partilham a mesma ideia e consideram o jovem “exemplar, responsável e com um carácter fruto da educação dada pela mãe”.


Francisco Muondo Dala, irmão, dois anos mais velho, considera ser uma “grande honra” ter o irmão no Sporting e destaca a sua humildade como “cartão-de-visita”. De vez em quando, Gelson visita a mãe, irmãos e amigos no bairro que o viu nascer e crescer.

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