PT

Melhores estudantes nos exames de acesso admitem dificuldades nas aulas

‘Barras’ nos exames escorregam nos cursos

Por Onélio Santiago


Dez meses depois de os ‘publicar’ com o título de ‘génios dos estudos’, por terem sido admitidos com as melhores notas na Universidade Agostinho Neto (UAN), o Nova Gazeta quis saber como se safam nas aulas. Além de casos dos que ‘coleccionaram’ zeros nas provas e dos que substituíram os estudos pelo auxílio a umo familiar doente, não falta quem tenha sofrido para se adaptar ao ritmo da universidade. Ninguém conseguiu ficar entre os melhores da turma.


‘Génio’ preferiu a Rússia

O detentor da maior nota nos exames de acesso à Universidade Agostinho Neto (UAN) em 2016, Eugénio Alfredo, preferiu trocar o ‘calor’ de Luanda pelo ‘frio’ de Moscovo. Apesar dos 18, 82 valores quando se candidatou às engenharias de Petróleo e de Minas na UAN, o jovem não pensou duas vezes quando soube que a Embaixada da Rússia estava a organizar umas ‘olimpíadas’ que resultavam na atribuição de bolsas de estudo: deixou de se dedicar à UAN, passou a faltar às aulas e priorizou a organização e tratamento dos documentos exigidos para o concurso.


Ultrapassada esta fase, seguiu-se aquilo que considera “a coisa mais fácil de todas”: o exame, onde participaram cerca de três mil candidatos para apenas 49 vagas. Com apenas 18 anos, Eugénio Alfredo estava na lista dos candidatos mais novos, mas a idade não o impediu de ter a nota mais alta do concurso: 17, 4 valores. “É claro que a UAN ensina bem, mas, em termos de formação, a Rússia está melhor e também me permite aprender novas culturas e novos idiomas”, explica o estudante em entrevista pelo Facebook.


Na Rússia desde Outubro, Eugénio Alfredo frequenta a Universidade Nacional de Pesquisa. Pretende formar-se em Electrotecnia ou Electromecânica, embora actualmente esteja apenas a ter aulas de russo e inglês. Orgulha-se de estar numa universidade onde “já passaram muitos vencedores de prémios Nobel”. Na UAN, onde nunca chegou a fazer provas, acredita que poderia ter sido “um bom estudante”, mas não se arrepende de deixar a universidade que, em Fevereiro, fez com parecesse pela primeira vez nas páginas de um jornal. “Graças àquela reportagem, muitos jovens do meu bairro mudaram de consciência.


“Apenas um momento”

Para Ernesto Miguel, de 21 anos, a prova de admissão é “apenas um momento”, pelo que ninguém se deve servir disto para se considerar “melhor ou pior”. Actualmente, o estudante confessa que não estaria em “condições” de voltar a passar por uma prova de admissão, embora assegure que os 18,42 valores com que ingressou em Construção Civil “não foi obra do acaso”. Pelo desempenho no ano lectivo, Ernesto Miguel entende que “não é justo” colocar-se entre os melhores da turma.


No primeiro semestre, não conseguiu eliminar ‘Química’. Por “lidar mal” com a pressão, escondeu dos colegas o sucesso obtido durante os exames de acesso. Tal omissão, contudo, não resultou a 100 por cento, pois houve colegas que retomavam o assunto durante as aulas, levantando discussões sobre quem de facto era o melhor da turma.


Sobre a experiência de caloiro na principal universidade do país, Ernesto Miguel revela o que conseguiu reter: “Fiquei a saber que a aprendizagem consiste também absorver as informações, não apenas dos livros e dos professores, como também dos colegas de turma, estando sempre com pessoas mais maduras e experientes.”


O ‘jurista’ que já teve zero

Aos 25 anos, Francisco Zua obteve a melhor média de entrada na Faculdade de Direito da UAN. Contudo, os 15 valores com que foi admitido em Fevereiro não convergem com o desempenho ao longo do ano lectivo, pelo que não ousa sequer colocar-se entre os cinco melhores da turma. Além de ter passado para o 2.º ano com uma cadeira em atraso, cujo nome prefere não revelar, Francisco Zua também coleccionou notas que considera “bastante negativas”, como os dois valores que obteve no primeiro semestre ou o zero do segundo. “Se se analisar bem o percurso dos grandes génios da história da humanidade, vai-se perceber que estes também reprovaram muitos”, comenta o estudante, salientando o “grande esforço” que lhe permitiu, ainda assim, avançar para o 2.º ano. “O zero nesta universidade é uma coisa normal. O importante é dar a volta por cima. Na fase em que tive zero, houve mais sete colegas com essa nota, mas somente eu consegui superar-me na prova de recurso”, salienta


“Não é como os outros níveis”

Dez meses depois de ser admitido com 18,8 valores em Língua e Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da UAN, Samuel Palanca, de 27 anos, ainda se recorda do “complexo” processo de adaptação por que teve de passar. Se, durante o exame de admissão, chegou a afirmar que “era tudo demasiado fácil”, com o decorrer das aulas, ficou a saber que o ensino superior “não é nem um pouco” como os outros níveis, pois se trata de um subsistema que obriga a que “seja o próprio estudante a buscar o conhecimento”.


Entre as ‘novidades’, consta igualmente a “irregularidade” de muitos professores, coisa que Samuel Palanca não registava no ensino médio. “Houve cadeiras que deveriam ser leccionadas no primeiro semestre, mas tiveram de passar para o segundo devido à ausência do professor”, lamenta o estudante, que também não obteve um desempenho que o possa colocar entre os três melhores da turma. “Mas o bom mesmo é que não fui a recurso em nenhuma disciplina”, salienta, justificando-se com as especificidades do curso que frequenta. “As cadeiras que constituem a prova do exame de admissão são completamente diferentes do que se vê aqui na universidade. No exame, não houve Linguística, nem Fonética e Fonologia.”


‘Prejudicada’ pela mãe

Licenciada em Análises Clínicas pela Universidade Metodista de Angola (UMA), Euzália Tomé, de 31 anos, sempre sonhou ser médica. Por isso, em Fevereiro, candidatou-se em Medicina na UAN e obteve a melhor média de entrada: 14 valores. Contudo, o que parecia ser a “realização de um sonho”, aos poucos, foi-se tornando num “ano muito complicado”, pois a mãe adoeceu e teve de ser operada quatro vezes em 2016 devido a um problema nos olhos. Sendo a filha mais velha das que vivem com a mãe, Euzália Tomé desdobrou-se em auxílios em idas ao hospital, em Angola e no exterior, relegando a universidade para segundo plano. Como resultado, confessa, às gargalhadas, que não pode “de forma alguma” estar entre os 50 melhores estudantes. “Se não fosse pelos problemas fora da academia, podia muito bem ter tido um ano lectivo melhor”, revela a estudante que, no segundo semestre, praticamente não estudou.


Em 2017, Euzália Tomé deverá repetir o 1.º ano, pois, além das cadeiras do 2.º semestre que não frequentou, ainda terá de eliminar uma outra do anterior.

» LEIA TAMBÉM

» Deixe o Seu Comentário