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Longas filas, ‘mixeiros’, ‘gasosas’ e noites nos postos de identificação

Um calvário para se obter o bilhete de identidade

Por Teresa Fukiady   /  Foto Santos Samuesseca


A ‘dor de cabeça’ para se adquirir um bilhete de identidade nunca acaba. Pelos postos de identificação, continuam a registar-se longas filas. E há quem se aproveita da situação para fazer dinheiro. São os ‘mixeiros’ que, em colaboração com os funcionários, facilitam o processo em troca de ‘gasosa’. O Ministério da Justiça garante que tudo funciona normalmente e que não há necessidade de haver filas.


Conseguir tratar um bilhete de identidade (B.I) é quase um acto heróico: exige muita paciência em longas filas em pé e coragem para arriscar sair de madrugada de casa. Ou até mesmo alguma ousadia: passar a noite no portão dos postos de registo e fazer companhia aos seguranças. Além desses sacrifícios,o cidadão precisa ‘rezar’ para que não falhe a energia ou o sistema. E tem de ter a sorte para ser abrangido pelas senhas limitadas que são distribuídas diariamente. Caso contrário, a solução é ser persistente e repetir o processo, dia após dia, ou noite após noite, até conseguir tratar o bilhete.


O NG fez uma ronda por alguns postos de identificação de Luanda e constatou a realidade. E conversou com pessoas que lá se encontravam desde as primeiras horas do dia outras até desde o dia anterior. É o caso, por exemplo, de Adalberto Manuel, que anda na ‘luta’ para a emissão da segunda via do B.I há quase dois meses. Cansado de chegar às cinco horas e não ser atendido, resolveu passar a noite no Palácio da Justiça, do Golfe 2. Chegou às 23 horas. Antes dirigiu-se ao posto de identificação do Prenda. Sem sucesso. Encontrou várias pedras perfiladas, indicando que os lugares já estavam ocupados. No Golf 2, apesar da hora, foi o quinto da lista. Fez do carro um quarto improvisado por uma noite, dos bancos a cama e trouxe um lençol para se cobrir. Às sete horas, momento em que se organiza a fila por ordem de assinatura, Adalberto Manuel mostra-se alegre por finalmente ter conseguido um lugar entre os primeiros, mas também receoso, que a energia ou o sistema falhe. “Ontem, estive aqui e não consegui tratar porque não tinha energia”, lamenta o rapaz que ‘pede aos céus’ para que situação não se repita. “Tomara que não aconteça novamente”, desabafa.


Ainda no Palácio da Justiça do Golf 2, Calabeto Santos, morador do Cazenga, assegura não ter ‘pregado olho’ para não adormecer e passar a hora de ir à luta do bilhete. Apesar de ter 25 anos, é a primeira vez que trata o BI, porque é órfão e desconhecia o paradeiro do bilhete do pai. O jovem de estatura alta e corpo magro saiu do Cazenga, por volta das três da manhã. Reconhece ter arriscado. “Nem pensei mais nisso. Vim mesmo ‘abuti’ (a pé) do Marco Histórico até à Frescangol. Lá apareceu um táxi do Golfe 2.” Quando eram quatro horas, já se encontrava no Palácio da Justiça. Como a lista estava meio vazia, resolveu ganhar algum dinheiro. Colocou dois nomes. Um dele e outro para vender. “Se quiseres posso te vender o meu. São só mil kwanzas”, sugere.


Até antes das sete horas, já havia extensas filas para bilhetes, cédulas e registos criminais. Mas nenhuma delas chega ao número de quem procura pelo BI. Momentos depois, uma pequena confusão instala-se porque os seguranças vão colocando nas filas, recém-chegados a quem venderem alguns lugares. Mas não se prolonga, é logo resolvido e tudo volta ao normal. Um dos seguranças reforça que para se conseguir um lugar na fila, a solução é pernoitar no local ou chegar muito cedo. “Só atendemos 20 pessoas para o bilhete por dia”.


No posto de identificação do Prenda, o cenário da moldura humana é mais notável. Para escapar aos ‘empurra-empurra’, há jovens que se dedicam a facilitar o processo em troca de dinheiro. São os ditos ‘mixeiros’. Trabalham em conexão com o pessoal do posto de identificação. “Pagas, chamam-te e tratas o bilhete e ainda tens o bónus de receber no mesmo dia”, é o lema. Sem esquemas, é preciso acordar cedo, aguentar a fila e receber o bilhete dias depois. Com os ‘mixeiros’ é tudo rápido, mas, ao mesmo tempo, caro. Uma ‘gasosa’ ronda entre os três e sete mil kwanzas. O dinheiro depois é dividido entre o ‘mixeiro’ e o funcionário do posto de identificação.


No bairro da 14, no Avô Kumbi, o posto distribui 40 senhas: 10 para a cédula de menores, 10 para a primeira emissão de BI para crianças, 10 para adultos e ainda 10 para o registo criminal. Quem não tem a sorte de receber, tem de regressar. No segundo dia de tentativa, Madalena José teve sorte. “Ontem vim e não consegui. O segurança disse-me que tinha de estar aqui muito cedo”. Foi o que fez. Vive no Kapolo 2. Saiu de casa às três horas da manhã. “Tive de arriscar. Aqui só tem de ser assim. Caso contrário, não consegues tratar o bilhete.” Sozinha no calar da madrugada e sem táxi a circular, Madalena José caminhou até ao Kimbango, onde, por “sorte”, apareceu alguém que se disponibilizou a dar boleia. Receosa, conta que chegou inclusive a negar a proposta, mas, depois da insistência, resolveu aceitar. “Antes de sair de casa, a pessoa tem de rezar”, esclarece, acreditando que foi por isso que não aconteceu mal nenhum.


Quando chegou ao posto, eram quase quatro horas. Para o seu espanto, encontrou o posto vazio, mas na lista já havia 10 nomes. A lista é um dos esquemas usados pelos ‘mixeiros’ que a preenchem com nomes falsos para marcar lugares e posteriormente venderem. Ela e mais outras pessoas sentiram-se injustiçados com a situação e decidiram criar uma discussão acesa, sugerindo a formação de uma nova lista. Na hora da entrega das senhas, ficou com a 19 e restava-lhe esperar que os atendimentos começassem para que finalmente conseguisse obter a segunda via do bilhete que expirou em Dezembro.


Quem também usa a ‘sede’ a seu favor são os seguranças. No SIAC do Cazenga, às 10 horas, sugerem à equipa do NG que pague quatro mil kwanzas e que se arranja forma de tratar o bilhete sem problemas. “Pague o dinheiro do bilhete no banco e depois venha com quatro mil kwanzas, vou dar-te um jeito”, acrescenta um segurança expedito. “Aqui não tem problemas dá só a ‘massa’ e é rápido.”


‘Mixeiros’, a solução

Precisa de tratar o bilhete de identidade ou qualquer outro documento, mas não quer fazer certos sacrifícios como acordar cedo? Basta estar disponível a desembolsar alguns kwanzas ou dar uma ‘mixa’, como é vulgarmente conhecida, aos jovens que chegam cedo para ocupar lugares ou até mesmo aos seguranças dos tais postos. Nos ‘mixeiros’, o processo é muito simples: para uma segunda via do bilhete, paga-se e entrega-se a fotocópia do BI. Eles tratam de tudo até da papelada do banco. Têm consigo nas mochilas, montes de ‘bordereaux’. No banco, paga-se 455 kwanzas e aguenta-se a fila. Aos ‘mixeiros’, paga-se mil kwanzas, não há filas e o sistema nunca falha. Compra-se o ‘bordereaux’, de seguida, o ‘mixeiro’ liga para a fonte dentro do posto e alguns minutos depois trata-se o bilhete e ainda com o bónus de receber no mesmo dia. Chega-se a desembolsar valores entre os três e os sete mil kwanzas. O valor é dividido com o funcionário do posto de identificação.


Enchentes “normais”
No ano passado, o país viveu grandes dificuldades na emissão de bilhetes de identidade. A situação foi justificada com problemas técnicos. “O país também está a viver uma fase complicada. Tivemos constrangimentos no fornecimento de materiais usados na emissão de BI”, explicou a directora Nacional da Identificação Civil e Criminal, Felismina da Silva. Motivo que levou a restrições, priorizando outros casos, sobretudo para quem estava a tratar pela primeira vez.


Confrontada sobre o negócios entre ‘mixeiros’ e funcionários, Felismina da Silva mostrou-se indisponível em prestar declarações, afirmando que só é responsável pelos trabalhos que estão dentro de registo. E convidou a provar-se a qualquer ligação entre eles.


Felismina da Silva considera, no entanto, ser “normal” as enchentes nos postos e acredita que tem que ver com o ano. “Em Novembro, Dezembro e Janeiro são as alturas em que registamos um pique, porque é a época em que há matrículas e concursos públicos e os que vivem no estrangeiro também vêm para renovar os bilhetes”, justifica a responsável que apela à “paciência” e aconselha os utentes a não madrugarem. “Os registos estão abertos das 7 às 17 horas e não há necessidade de madrugar. Salvo se querem ser atendidos de forma rápida, porque têm outros afazeres”, afirmou ao NG.


Durante a reportagem, o NG constatou a limitações no atendimento. Mas a responsável assegura que os postos “não têm um limite”. “Por uma questão de organização, até porque os estabelecimentos não são tão amplos, o que fazemos é a distribuição de senha. Atendemos as primeiras e depois voltamos a dar outras. Até todos serem atendidos”.

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