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Analistas e políticos de acordo

Eleições vão dominar debate político

Por Valdimiro Dias   /  Foto Mário Mujetes


Analistas e actores políticos elegem as eleições, a possível sucessão de José Eduardo dos Santos, e crise financeira e intolerância politica, que pode subir de escalada nos próximos tempos, como os assuntos dominantes de 2017.


Analistas e actores políticos são unânimes em eleger as eleições como acontecimento que vai dominar todo o cenário político, a par da crise económica que ganhou muito relevo nos últimos dois anos e da provável subida de escalada da intolerância política durante o período da campanha e pós-eleitoral
O coordenador do Observatório Político e Social de Angola (OPSA), Fernando Pacheco, elenca primeiramente as eleições, apontando um segundo aspecto directamente ligado a elas: o cabeça de lista do MPLA. Fernando Pacheco entende que o partido “tem gerido mal a questão, sobretudo no modo de comunicar com os eleitores”. “Não percebo porque não se anuncia”, desaba o coordenador da OPSA, que apela para o MPLA e o Governo melhorarem a forma de comunicar para “evitarem futuros dissabores”.


Fernando Pacheco prevê ainda um aumento no “tom de conflitualidade” entre o MPLA e a oposição, lembrando que o ano começou com algumas “picardias” com saídas de militantes de partidos da oposição para o partido no poder, um aspecto que indicia “alguma instabilidade, sobretudo com acusações pouco aconselháveis”.


O responsável da OPSA lembra que, já em duas ocasiões, o Presidente da República apelou à serenidade, mas receia que os órgãos de comunicação social, afectos ao Estado, não estejam a trabalhar neste sentido. Aponta, como exemplo, o último episódio relativo ao representante da UNITA na Holanda, considerando que a cobertura da matéria da TPA foi “completamente desproporcional”.


“A realização das eleições encerra alguns desafios, principalmente na criação de condições políticas para que aconteçam em ambiente de tolerância e paz, face ao agudizar das posições de partidos competidores, sobretudo os históricos que se digladiaram em tempo de guerra”, defende Alberto Colino Cafussa.


Para este politólogo, as eleições têm a particularidade de fazer a transição nos partidos históricos. Aponta o exemplo do MPLA que “começou a transição da liderança”, sendo que se José Eduardo não concorrer, o partido tem o desafio de “impor novas marcas”.


Alberto Cafussa defende também que a liderança de Isaias Samakuva, desde 2003, “não tem sido fácil”, e que “a transição fragilizou o partido, não foi consensual teve reflexo nos resultados eleitorais, razão pela qual alguns militantes exigem a saída do actual presidente”.


A renovação nas lideranças deve ser extensiva ao PRS, defende Alberto Cafussa. “O PRS, liderado por Eduardo Kuangana, deve organizar o congresso”. O politólogo nota o “emergir de novas figuras, jovens que podem assegurar a continuidade do partido”, apontando como exemplo Benedito Daniel.


A crise económica vai ombrear com as eleições e Fernando Pacheco elege, como questão fundamental, o preço do petróleo que tem a perspectiva de estabilizar entre os 55 e os 60 dólares por barril. No entanto, alerta para as “tentações” de se aumentar o despesismo, uma vez que o orçamento define o preço do barril nos 46 dólares. Fernando Pacheco receia que “venham por aí ofertas, que não são prioritárias, mas que os detentores do poder entendem que dão visibilidade”. Com ou sem crise, defende que Angola já devia ter criado as autarquias.


A economia também preocupa Alberto Cafussa, enfatizando que o MPLA tem o desafio de “transformar o momento de crise em estabilidade e oportunidade”, tendo em conta que “a crise expôs alguns problemas de gestão, como erros que foram cometidos em momentos de bonança durante o ‘boom’ petrolífero”. “Um governo não pode ir a eleições em tempo de crise, porque os eleitores acabam por ter outras opções”, alerta o professor de Ciências Políticas da Faculdade de Ciências Sociais.


Entre os actores políticos, o vice-presidente da CASA-CE, Manuel Fernandes, perspetiva que o ano seja de “muitos desafios” e que a agenda passa por materializar as estratégias definidas no último congresso: mobilizar e controlar o voto no sentido de valorizar a decisão, evitando a fraude e na esperança que a CASA-CE possa vencer as eleições. Manuel Fernandes já nota “indicações positivas”, fruto dos acordos alcançados pelos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo.


Mais comedido, Alcides Sakala garante que todo o foco está virado para a realização das eleições, que vão mobilizar toda a sociedade. O deputado da UNITA entende que se possam destacar outras abordagens económicas e sociais, mas tendo em vista as eleições.


O secretário-geral do PRS, Benedito Daniel, destaca os desafios internos do partido que passam por realizar o congresso até Março que vai definir a estratégia eleitoral, aprovar emendas aos estatutos e alargar a base das estruturas do partido.


Do ponto vista do parlamento, elenca, como principal desafio, elaborar a legislação das autarquias no sentido de encurtar os prazos da realização das eleições municipais para que, pelo menos, venham acontecer até 2018, criticando a indicação do Executivo para que se realize em 2021 como uma “falta de interesse em cumprir com um pressuposto constitucional”.


Por parte do MPLA, o deputado João Pinto prevê um ano “claramente eleitoral, que coloca um grande desafio”, mas alerta que o seu partido deve primeiro “concluir o programa de Governo sufragado nas últimas eleições”. “O MPLA é organizado”, considera o parlamentar, defendendo que o partido “possui história, programa politico, orientação, liderança forte, estratégica e quadros que sabem as orientações no plano estratégico e tácticos.


Além disso, lembra que o MPLA tem um plano de desenvolvimento de 2013 -2017, cujos resultados, “espelhados pelo Instituto Nacional de Estatística mostram que país começou a trilhar o caminho do desenvolvimento, sobretudo na saúde e educação”.


João Pinto defende a necessidade de combater o “angopessimismo que, face à desaceleração da economia, tem tecido críticas” e faz comparações: “Tivemos o caso vergonhoso dos ‘revus’, em que houve muita ingerência externa de governos, organizações internacionais, mas o Brasil teve situações mais vergonhosas nunca vistas em Angola, com mortes nos presídios e não vemos nenhum gafanhoto a intervir”.


Para o ano eleitoral, o MPLA traçou como meta vencer as eleições com maioria absoluta ou qualificada, uma fasquia definida pelo líder, José Eduardo dos Santos, na última reunião do Comité Central

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