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Entrevista a Albano da Silva Lussati, presidente da UNACA

“Só há fome para quem vive na cidade”

Por André Kivuandinga   /  Foto Manuel Tomás


O líder da Confederação das Associações de Camponeses e Cooperativas Agropecuárias de Angola (UNACA) não tem dúvidas de que só passa fome quem não percebe de agricultura. Albano Lussati garante que a terra pode alimentar todo o país, mas lamenta os problemas de escoamento e que os camponeses sejam expropriados por gente “endinheirada”.


Qual é a produção agrícola em Angola?
Se em 2013 e 2014 tivemos constrangimentos de fertilizantes e sementes, esta dificuldade não se verificou em 2016. Isso faz crer que 2017 seja de êxitos na produção. Seria bom que os camponeses produzissem mais ou as mesmas quantidades de 2014, ano em que se registou a produção de mais de milhão e 300 toneladas, que corresponde a 75 por cento da produção de milho. Só a agricultura familiar pode criar fontes para a segurança alimentar. Produzimos e há excedentes que são disponibilizados e outros ficam como sementes para o ano seguinte.


Como se chega aos mercados nacionais?
Devemos criar mecanismos adequados para o escoamento dos produtos. O grande problema reside na falta deste mecanismo. Já foram ensaiados vários instrumentos. O último dos quais foi o Programa de Aquisição dos Produtos Agropecuários (Papagro). Foi um programa muito bom, que andou bem no arranque e infelizmente na caminhada encontrou constrangimentos. É preciso seleccionar pessoas capazes. Muitas vezes, erramos quando recrutamos o comerciante da cidade que não conhece o mato e se entrega todos os recursos para fazer a comercialização. Devem ser recrutadas pessoas que conhecem o mato, não o que só vai ao mato no final de semana.
A direcção da UNACA está a trabalhar com o Ministério do Comércio para encontrar um quadro mais aceitável para o escoamento de produtos. O importante é que haja um engajamento, primeiro na produção, segundo no escoamento para que os camponeses não observem a produção a estragar.
Quando encontro num supermercado tomates e cebolas importados, fico triste, porque temos muita produção. Muitos angolanos pensam que consumir alimentos vindos do exterior é ser civilizado, em detrimento da alimentação de qualidade que é produzida no país.


No Papagro, a UNACA foi consultada?
A UNACA esteve na comissão e infelizmente, em algumas situações, fomos ignorados. Quando se observou a degradação do programa, voltaram a chamar-nos para escolhermos algumas cooperativas para receber crédito. Elegemos algumas e fornecemos a lista ao Ministério do Comércio que, por sua vez, entregou alguns valores. Deu bons resultados, mas, infelizmente, o programa já estava degradado.


A UNACA aceitaria gerir o novo Papagro?
Há essa possibilidade. Nos últimos tempos, estamos a trabalhar com um departamento do Ministério do Comércio. Nesta comissão, não faz só parte a UNACA, há também outras organizações. É importante estender esta rede de comercialização até às cooperativas. De 1978 até 1990, os produtos eram comercializados pela Ecodimpe, órgão do Ministério do Comércio que levava os produtos da cidade para o campo e vice-versa. Hoje o camponês tem uma visão diferente. Quando as coisas da cidade sobem ele também faz subir a sua produção. Quando, em 2015, o adubo custava 15 mil kwanzas o saco, a produção do campo subiu, mas agora o saco do adubo desceu para cinco mil. As cooperativas estão abastecidas de adubos. Quando queremos entregar os fertilizantes a crédito, os camponeses querem a pronto pagamento. Isto é bom, é uma consciência nova e muitos cresceram economicamente e nem todos precisam de crédito.


Qual é a relação entre a UNACA e os bancos?
Uma das dificuldades que temos é de conseguir crédito financeiro. A situação melhorou em 2016 nalgumas províncias como o Zaire, que entrou no sistema do Banco Sol, e Malanje, através do Banco de Comércio e Indústria.
Alguns bancos encontraram nos camponeses os melhores clientes. Quando se iniciou o microcrédito, foi um grande êxito porque facilitou a organização dos camponeses. Alguns já conseguem avançar para o crédito de campanha, do qual recebem sementes, adubos e outros equipamentos. Temos a certeza de que alguns camponeses não pagaram, sobretudo os das províncias que tiveram problemas de estiagem, como as do Cunene, Huíla e Kwanza-Sul, mas os camponeses estão a trabalhar para pagar as dívidas.


Há muitas terras férteis?
A maior riqueza de Angola é a terra. O melhor petróleo deste país chama-se terra, o verdadeiro petróleo acaba. A terra está intacta, os camponeses continuam a produzir. Os camponeses dizem que a fome é de quem vive na cidade. Eles não têm fome. Devemos apostar na agricultura para engradecer o país e gerar riqueza. Hoje não se nota tanta importação do ovo, basta também o Governo proibir a importação da cebola. Cada angolano deve ter uma parcela de terra, ainda que seja apenas de meio hectare, para fazer uma pequena produção. Se isto acontecer, nunca sentiremos dificuldades.


Mas é difícil ter

acesso à terra…
O acesso a terra é outro fenómeno que está a surgir, estimulado por endinheirados que expropriam os camponeses. Para desapropriar a terra, deve haver negociações. Temos recebido muitas queixas. Pessoas das cidades que vão ao mato para receberem terras de quem as produz. Se o Governo precisa de uma área para erguer prédios, deve realizar um estudo de viabilidade para retirar o povo e colocá-lo onde possa continuar a produção. Assim se evitam descontentamentos. A desapropriação de terras trouxe consequências no Brasil, que originou o movimento dos ‘Sem terra’, foi quando os latifundiários começaram a receber as terras dos pobres. Não queremos isso em Angola. Aqui, 80 por cento da população é camponesa. Muitos trabalham na terra dos ancestrais. Para não abrir conflitos deve haver coordenação e honestidade.


Já foram chamados para dirimir conflitos?
Em Luanda, há uma cooperativa que está ser expropriada, alguém quer o espaço. Pretende erguer um empreendimento e sem indicar onde poderá colocar quem trabalha a terra. Quando se retira os camponeses da produção, estamos a criar um exército de marginais. Quem observa o tractor a derrubar as mandioqueiras, bananeiras ou outra produção, vem na alma o sentimento de revolta e de angústia, sem saber onde poderá continuar a produzir. Em vez de resolvermos um problema, estamos a criar outro. Há casos do género nos tribunais.
O número de expropriação aumentou nos últimos anos. Deve-se trabalhar muito com os sobas, porque muitos participam nesta venda de terras, sem consultar os produtores.


Como vê os perímetros irrigados?
O surgimento dos perímetros é positivo, mas devem também estar ao serviço da agricultura familiar, tal como previsto na Quiminha, que procurou mecanismo para os camponeses da zona se organizarem. É preciso que haja colaboração e engajamento para se trabalhar na agricultura industrial. Ao lado, tem de haver a lavra para que não fique dependente do perímetro. Nos países industrializados, quem alimenta as fábricas são os camponeses.

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