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Pais optam por deixar os filhos em casa

Crise aperta nas creches

Por Teresa Fukiady   /  Foto Santos Samuesseca


O Ministério da Assistência e Reinserção Social (MINARS) iniciou um processo de recadastramento das creches e centros infantis no país. E avisa que pensa em regular e catalogar as instituições para melhor definir os preços praticados que, para já, “não são agradáveis”. Com a crise, muitas creches estão a fechar, outras preferem dispensar trabalhadores por causa da redução do número de crianças. Mas há quem sobreviva e bem.


Com a crise, ‘poupar’ tornou-se a palavra de ordem. Alguns pais escolheram cortar gastos com as creches optando por deixar os filhos sob cuidados de familiares ou de amas. E com isso, algumas creches ficaram quase vazias.


Em tempos de ‘vacas gordas’, em 2014, o Centro Infantil Jeriel, no Calemba II, em Luanda, chegava a estar cheio. Recebia cerca de 80 crianças num ano. Foi só chegar a crise que se começaram a sentir os efeitos da poupança. Em menos de dois anos, teve uma queda drástica no número de crianças, em cerca de 83 por cento. “Fiquei com apenas 14 crianças”, conta a proprietária, Isabel Moniz. Com o negócio em decadência, pensou em fechar a creche, mas desistiu. Para continuar, fez reajustes: começou por reduzir o preço das mensalidades de 20 para 15 mil kwanzas. “Apesar da redução, perdi muitos clientes por causa da crise.”


Antes ‘Cuida-se’, o centro ganhou estatuto de creche este ano, após a aprovação pelo Ministério da Assistência e Reinserção Social (MINARS). Agora tem de pagar impostos e outros emolumentos. Por isso, optou por arriscar e voltou a subir os preços para conseguir suprir as despesas: 25 mil kwanzas é o valor por cada criança. Apesar da subida, mostra-se satisfeita por ter, até Fevereiro, inscrito 14 crianças. “Este ano, começou bem. Tomara que venham mais.”


A creche teve ainda de diminuir o número de funcionárias. Passou de seis para duas: uma para a cozinha e outra para a limpeza. Sendo Isabel Moniz a responsável por cuidar dos pequeninos. A proprietária espera “não perder mais clientes” e considera que o número de trabalhadores é compatível com o dinheiro que recebe.


Mesmo para quem está a começar, as dificuldades não perdoam. ‘O berço dos pequeninos’ funciona desde o ano passado e já teve de mandar para a casa duas funcionárias, porque não conseguia equilibrar as contas, fruto da desistência de pais por alegada falta de condições financeiras. Até ao meio do ano, tinha nove crianças, mas depois ganhou outras nove. Terminou o ano com 18. A responsável, Gisela Pedro, conta que os que se foram embora, muitos deixaram ‘kilapis’, o que pesou nas finanças. “Está apertado para pagar os salários e fazer as compras”, lamenta.


Face às dificuldades, há quem tenha optado por outras estratégias. Nelson dos Santos, gerente da ‘Turma da Madja e Tukayana’, começou com preços ao “bolso dos clientes”. No princípio, cobrava 22 mil kwanzas para todas as idades. Mal começou a sentir a crise viu-se obrigado a repensar. “Tivemos de subir para 30 mil”, conta o gerente, reconhecendo que “o impacto não foi bom”. Então optou por descontos de 10 por cento aos pais com mais de uma criança na creche. “Há encarregados que se sentiram incapacitados. Alguns preferiram creches com preços razoáveis e outros optaram por manter os filhos em casa”. Nelson dos Santos entende que a instituição que gere não está mal nos preços. “Há algumas com preços mais altos”. Mesmo perdendo cerca de oito crianças em 2016, terminou o ano com “saldo positivo”.


Enquanto uns se queixam da ‘fuga’ de clientes e outros fecham portas, há também quem parece não sentir os ‘apertos’. Como é o caso da creche ‘Os Pitruquinhas’, no Nova Vida, Luanda, que se alegra de ter mais 20 crianças em relação ao ano passado, quando acolhia cerca de 360. A directora-geral, Ana Rita, admite que viveu algumas dificuldades no ano passado, mas foi a nível logístico, devido à escassez de produtos e à subida de preços. “Foi um ano positivo. Conseguimos crescer. Abrimos mais duas creches”, conta, mostrando-se feliz pela conquista em “tempos apertados”. E ainda garante estarem melhor do que esperavam. “Os pais estão a inscrever os filhos até mais cedo do que se esperava, inclusive os mais pequeninos, a partir dos oito meses, coisa que não acontecia nos outros anos.”


Diferente dos outros, em que os pais, devido às dificuldades financeiras, foram retirando os filhos, aqui tal cenário não foi vivido. Mas revela que, no final do ano passado, alguns pais tiraram os meninos antes de acabar a iniciação. “Não sei se tem que ver com a crise ou com a escolha de outras escolas”. A instituição cobra entre os 60 e os 72 mil kwanzas por mês.


Quem também garante estar bem é a creche Pitabel, que, mesmo sem prestar muitas informações, garante estar “tudo a correr bem” e que as creches estão cheias. Recém-chegado ao mercado, o Portal Seguro está aberto há menos de um mês. A responsável, Zenilda Crespo, assegura que não está a correr mal e que, apesar de ainda ter poucas crianças, há perspectivas de receber mais. Cobra valores que vão dos 70 aos 75 mil kwanzas por criança.


Preços tabelados

Os preços praticados pelas creches no país não agradam ao MINARS, que avisa que, com o recadastramento que se iniciou na semana passada, vai colocar balizas nos preços. O Ministério pretende saber quantos centros infantis há, de facto, no país e quais os preços praticados, para os regular, categorizar e ainda classificar a qualidade das infra-estruturas e dos serviços prestados. Mas o director Nacional da Criança do MINARS deixa claro que o processo está a ser estudado e analisado e que é prematuro anunciar datas. “Estamos a trabalhar a partir deste ano para ver se o mais cedo possível possamos ter as balizas bem estabelecidas”, esclarece Sebastião Muhondo.


Para já, sabe-se que há 437 centros infantis públicos e privados e que atendem 42.294 crianças, em todo o país.
Sebastião Muhondo defende que os preços praticados pelos centros infantis “não devem dificultar os pais”. Apesar de entender que os centros privados perseguem um objectivo, que é o económico, defende que é importante que “não se excedam”. “É preciso ver em que sociedade estamos”, alerta.
Nem bons e nem maus, mas o “positivo possível” é assim que Sebastião Muhondo avalia os serviços prestados pelas creches e centros infantis. “Precisamos de trabalhar um pouco mais para continuarmos a incluir mais crianças no atendimento à primeira infância e é preciso melhorar os serviços com a formação de educadores e vigilantes”, concluiu.

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