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Futebolistas, basquetebolistas e pugilistas arruinados

Estrelas do desporto que ‘perderam o brilho’

Por Raimundo Ngunza  /  Foto Santos Samuesseca

O mundo desportivo dá muitas voltas. Poucos terminaram bem a carreira e muitos nem tanto. Muitos foram estrelas nos clubes, selecções nacionais e conquistaram fãs e dinheiro. Hoje as estrelas deixaram de brilhar e não se prepararam para épocas ‘de vacas magras’, acabaram mal e vivem momentos difíceis. Encontrámos no basquetebol, boxe e futebol. Esta última lidera a lista com maior número de casos.

A carreira desportiva é curta. Esta é uma frase que está na boca dos desportistas da alta competição. Tornados ídolos pelos clubes por que passaram e, muitos, até mesmo pelas selecções nacionais, alguns ex-craques perdem-se após o término da carreira e acabam a braços com diversos problemas, entre eles o consumo excessivo de bebidas álcoólicas, a falta de formação e a má admistração das finanças. O futebol, modalidade número um em Angola, lidera as estatísticas das estrelas que deixaram de brilhar, sem preparação para as épocas das vacas magras, acabaram mal e vivem momentos difíceis. O NG falou com algumas.
A nossa primeira paragem acontece no Zango 1 ao encontro de Pedro Cassumba Domingos, mais conhecido por Fofaná, que está a recuperar-se de um paludismo. Com seis filhos por educar, o antigo jogador do Benfica, 1.º de Agosto e ASA, contou ao NG que a sua vida está cada vez mais difícil e que não consegue encontrar um emprego para sustentar a família. Hoje depende exclusivamente da esposa. Em prantos, Fofaná, de 36 anos, não se conteve, desprendendo lágrimas de desespero e alega ter sido esquecido e abandonado.
O ASA foi o último clube que representou na época de 2014 a 2015, mas, devido a uma lesão de que padecia na altura, a direcção do clube, presidido por Elias José resolveu rescindir o vínculo laboral, pagando apenas 50 por cento, estando os outros 50 em falta. “Até agora, aguardo a outra metade do dinheiro”.
A conversa, várias vezes interrompidas, porque Fofaná não se continha e voltava a ´lagrimar´, versou sobre o momento actual menos bom da sua vida. O ex-jogador acredita que ainda está em condições físicas e mentais para jogar mais duas temporadas e acredita em dias melhores. “Os dirigentes não reconhecem os feitos dos jogadores”.
António Lebo Lebo ou simplesmente Lebo Lebo, o defesa central conhecido por pintar o cabelo de loiro, hoje é kinguila no bairro Kassequel do Buraco. ‘Deu-nos finta’, para uma breve conversa e, até ao fecho da presente edição, não atendia as chamadas. Aos 40 anos, vive com a esposa e filhos em casa arrendada e as condições de acesso e habitabilidade não são das melhores, para um jogador que até esteve no Campeonato do Mundo, em 2006 na Alemanha, na primeira participação dos Palancas Negras. O defesa alinhou pelo Sagrada Esperança, Interclube, Recreativo do Libolo, Petro de Luanda e pelas formações do Qatar, Rússia e Brasil. E do Kassequel do Buraco não é tudo. Encontramos também o Isaac Lukuli, mais conhecido por Isaac, jogou como avançado no 1.º de Agosto e Sagrada Esperança, sendo carrasco de muitos defesas. Aos 41 anos, o antigo craque afirma que não ganhou milhões e possui duas casas durante os anos de carreira. E apesar das dificuldades que os antigos atletas passam, Isaac, sublinha que nunca devem baixar a cabeça.
Por sua vez, Dias Caires alerta para a triste realidade dos ex-jogadores. O antigo defesa central considera que jogaram no tempo do conflito armado e entende que o Governo devia prestar apoio necessário e sublinha haver espaços na modalidade e estarem inseridos nos escalões de formação.
Para antigo defesa central do Petro de Luanda, Independente do Tômbua e ASA, muitos dos ex-colegas deixaram de estudar muito cedo para honrar a pátria e assegura que “medalhas e diplomas de reconhecimento não enchem barriga, e que é preciso melhorar as condições de vida destas pessoas”.
Com oito títulos pela selecção principal de basquetebol, Ângelo Victoriano é um dos basquetebolistas com mais troféus em África e em Angola. Mas após o término da carreira, o ex-craque teve problemas graves de saúde e o grito de socorro foi lançado. “Um Smash Para a Vida” foi o lema da campanha que em 2014 foi promovida por pessoas singulares para ajudar o ex-capitão da selecção nacional e do 1.º de Agosto. O antigo craque da bola ao cesto padece de diabetes.

O antigo extremo-poste em Portugal actuou pelas formações portuguesas do Queluz e do Futebol Clube Barreirense e em Angola pelo Atlético Sport Aviação (ASA), Petro de Luanda e acabou a carreira no 1.º de Agosto e um dos mais titulados a nível da selecção principal, tendo conquistado oito troféus e quatro presenças em Jogos Olímpicos. Hoje com 49 anos, transferiu os smashs, lançamentos de três pontos para Malanje. Foi convidado pelo actual governador, Norberto dos Santos ‘Kwata Kanawa’ a liderar um projecto de massificação da modalidade na província. Baduna, o mais novo dos irmãos Victoriano, confirma ao NG que o irmão tem feito com regularidades as consultas médicas para controlar os níveis de açúcar no sangue.
Já Pedro Filomeno de Vasco, é outro exemplo de ex-atleta cujo futuro não sorriu. Quem vê ‘De Vasco’ pelas ruas de Luanda não consegue acreditar que foi um dos melhores pugilistas angolanos a competir na diáspora e até responsável pela introdução do boxe profissional em Angola.
Hoje, com 65 anos, e devido ao estado físico debilitado, De Vasco admite estar “arruinado, frustrado e abandonado”. Recebe, de vez em quando, cinco mil kwanzas das mãos do presidente da Federação Angolana de Boxe (FABOXE), Carlos Luís.

Com mais de 40 anos de carreira de muito sucesso, sem casa e a viver da caridade numa igreja no Cacuaco, ‘De Vasco’ acusa a antiga companheira de ter retirado todo dinheiro que estava na sua conta num dos bancos em França, após falsificar documentos.
Devido às suas débeis condições sociais, o antigo pugilista apela à ajuda da sociedade. Em 2014, escreveu uma carta ao Ministério da Juventude e Desportos, solicitando um apoio que lhe permitisse adquirir uma casa ou terreno, mas nunca obteve qualquer resposta.

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