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Saídas profissionais vão além do emprego

Formação em artes abre portas

Por Amélia Santos  /  Foto Santos Samuesseca

Já se passam mais de quatro anos desde que o sonho de se tornar licenciado ou profissional qualificado em artes é uma realidade em Angola, com abertura do Complexo Escolar de Artes (CEARTE), em Camama, em 2015, e o Instituto Superior de Artes (ISART), na Centralidade do Kilamba, em 2014. Gestor escolar fala em uma “nova fase”.

Embora exista quem lamente que as artes plásticas e cénicas são “pouco valorizadas”, não falta quem assegure que estas profissões “abrem portas ao empreendedorismo cultural”. Jorge Gumbe, director do Instituto Superior de Artes (ISART), calcula que 70 por cento dos artistas nacionais não tiveram formação académica, observando que uns desenvolveram a arte de forma informal e outros em oficinas de artes. Com a criação do ISART, o seu director vê, entretanto, uma “nova fase” no país, a julgar pelos técnicos já formados que, “sem dúvida, vão dar outro dinamismo à arte”.
As saídas profissionais, desde já, “abundam”. Para quem se licencia em Música, Artes Plásticas e Multimédia, por exemplo, pode envolver-se na actividade empresarial, com recurso a programas de crédito, como o ProJovem e o FAJE. O mesmo diz-se em relação aos técnicos formados em Teatro e Cinema que podem também candidatar-se, entre outros, a emprego nos grupos teatrais e na televisão.
O director do ISART garante, desde já, que o plano curricular da instituição está ao mesmo nível da formação nos países da SADC, da CPLP e de outras universidades do mundo, mas lamenta as dificuldades da sua efectivação, por insuficiência de quadros. “O Estado está a criar políticas no sentido de enviar quadros para o exterior para concretizar a pós-graduação”, declara Gumbe.

Em relação à afirmação no plano internacional, Jorge Gumbe, embora reconheça a existência de “grandes artistas a afirmarem-se no exterior”, acha que ainda é “muito cedo” para se comparar Angola com outros países, em matéria de artes. “Estaríamos a ser ambiciosos de mais, temos de ser humildes”, aconselha, apontando que o país “está a caminhar bem, devagar e com passos firmes”.
O artista plástico António Tomás Ana ‘Etona’ entende, por seu lado, que as artes plásticas ainda não recebem o “devido tratamento” das instituições. E observa que quem as faz e as representa no exterior não leva a cultura em si. “O artista plástico, quando expõe fora de Angola, só representa o lixo, porque é aquilo que é vendável no estrangeiro”, critica Etona, acrescentando que o que se devia era “mostrar o que é realmente a arte”.
Reeleito secretário-geral da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), em Abril, Etona afirma que “pretende manter o artista como elemento da sociedade”. “A arte é expressa de várias formas, mas tem de se ter algum cuidado, porque vemos artistas e críticos que escrevem coisas obscenas em jornais e mesmo fora de Angola”, explica Etona que teme que “a arte seja trocada com elementos de estupefacientes para a sobrevivência do artista”. O ISART e o CEARTE (Complexo Escolar de Artes), este a nível médio, são as duas únicas instituições públicas vocacionadas para a formação artísticas, nas disciplinas de Música, Artes Plásticas, Teatro, Multimédia, Dança, Cinema e Artes Visuais.

Dança sem bases

“Mais do que saber dançar, é necessário conhecer a técnica, ter material apropriado e espaço confortável que proporcione condições para quem queira tornar-se profissional desta área”, defende Elizandra Bernardo, professora de dança, da escola privada ‘Alpha-Omega’. Com duas turmas de danças diárias, e com duração de uma hora e meia cada turma, o ballet é o mais solicitado.
Elizandra Bernardo explica que, para a dança, “não há um tempo cronometrado por se tratar de uma disciplina que requer sempre actualizações e em Angola não há ensino especifico de dança, o que faz com muitos estudantes tenham de ir terminar ao estrangeiro a formação superior”.
A disciplina não é ensinada, por exemplo, no ISART, apesar de constar dos planos curriculares. A explicação é a falta de condições infra-estruturais, mas também “por se tratar de um curso que tem necessidade de precedência”, segundo Jorge Gumbe. O gestor avança, no entanto, que, em parceria com os Ministérios da Educação e da Cultura, “o ISART está a trabalhar de modo a que haja educação integral desta disciplina no plano curricular da primária, para que a criança saia com bases”.

Onde formar-se em artes

No centro de formação e cultura ‘Ensinarte’, no Zango 3, há disciplinas de Alfabetização, Artes Plásticas, Dança, Teatro e Educação Moral e Cívica. O objectivo do centro não é formar artistas, mas técnicos de várias áreas, segundo o seu patrono, António Tomás Ana ‘Etona’. No CEART, situado em Camama, formam-se técnicos médios em Música, Dança, Cinema, Artes Visuais e Plásticas e Teatro. Já no ISART, situado na centralidade do Kilamba, fazem-se licenciaturas nas áreas de Música, Artes Plásticas, Teatro e Multimédia. Angola tem mais de 500 centros de formação profissional, segundo o ministro da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, António Pitra Neto. Entre público e privados, os espaços incluem centros móveis, pavilhões de artes e ofícios e estão distribuídos em todas as províncias.

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