PT

Na base, falha na linha de enchimento da Sonagás

Gás butano mais caro

Por Osvaldo Quilo  /  Foto Manuel Tomás

O preço do gás butano no mercado paralelo regista, nas três últimas semanas, um aumento em Luanda. A botija de 12 quilogramas está a ser comercializada a 2.000 kwanzas, contra os 1.200 do preço oficial. A especulação deve-se à escassez do produto, segundo os vendedores “motivada pelo não funcionamento da linha de enchimento da Sonagás durante os feriados prolongados”.

Dias depois de a Sonangol, através do director do gabinete de comunicação e imagem, Mateus Cristóvão, ter esclarecido os motivos da escassez de gás butano, em Luanda, alegando problemas técnicos registados nas instalações da Sonagás, bem como dificuldades de atracagem do navio de abastecimento, na Refinaria de Luanda, o preço do produto “continua a ser especulado”. Nos principais mercados informais, da capital do país, a botija de gás, que, no princípio de Abril, custava 1.200 kwanzas, está a ser comercializada a 2.000 kwanzas, um aumento de 66 por cento.
Uma realidade que as revendedoras entendem ser “normal”, em função das dificuldades em adquirir o produto e pelo aumento da procura. “Os clientes estão a procurar-nos mais devido à falta de gás nas agências. Por isso decidimos vender a 2.000 kwanzas, a botija laranja, 2.500 a amarela, enquanto a azul estamos a fazer 2.700 kwanzas”, explica a revendedora Marta Epalanga, a poucos metros da agência de gás junto à antiga Macambira, na Vila Alice. Face ao aumento da procura, em duas semanas, vendeu cerca de trinta botijas, mais 20, do que vendia em um mês.
Beatriz Santigo, revende gás há uma década e meia na entrada no Rocha Pinto. Justifica o aumento com a falta de agências autorizadas na localidade. “Só conheço duas agências que vendem gás, num bairro tão grande. Normalmente vendia a 1.500 kwanzas, fiquei assustada com a procura. Depois, apercebi-me que não havia gás nas agências e fui saber a quanto é que os outros estavam a vender no mercado. E, como tinha grande quantidade em casa, aproveitei revender a 2.000 kwanzas”, explica.
Hélder Almeida, auxiliar da administração da Largaz, afirma que “a especulação ganha peito quando as agências autorizadas se encontram sem stock” e responsabiliza as fábricas que não trabalham aos feriados. “Não é recorrente a falta de gás, mas sentimos a ausência do produto, devido aos feriados prolongados. Na Semana Santa e no Dia dos Trabalhador, as fábricas praticamente ficaram paralisadas. E, quando isso acontece, às vezes, não temos o que vender”, refere.
Hélder Almeida garante que a disponibilidade do produto já foi reposta, por parte da Sonagás, mas lamenta o facto de, algumas vezes, não conseguir gás, por culpa da chegada tardia da viatura de recolha nas instalações da Sonangol, bem como da enchente, doutros agentes autorizados.
“Há muito que a Sonagás melhorou a distribuição. Por dia, recebemos mais 300 botijas com gás e, quase sempre, conseguimos vender todas, na maior parte aos retalhistas e o que resta disponibilizamos para a população. Sempre que o gás chega depois das 14 horas, preferimos não vender, passando para outro dia. O que depois acaba por originar longas filas”, esclarece.
Durante a ronda do NG, nalgumas agências autorizadas, verificou-se que os estabelecimentos, nos diferentes pontos de Luanda, praticam basicamente os mesmos preços, os estabelecidos pela Sonagás, como são os casos: Cassenda, Rocha Pinto e Cassequel, na Maianga; Cuca, Hoje-Ya-Henda e Vila Flor, no Cazenga; Zango três e estalagem, em Viana.
Na do Largaz, no bairro Popular, uma botija de 12 quilogramas está a custar 1.092 kwanzas, para os retalhistas (com limite de até 80 garrafas, para cada comprador). Enquanto no balcão a 1.500 kwanzas (com limite de uma a duas garrafas).
No Golfe2, junto ao Quartel dos Bombeiros, encontrámos Alex Vita, vendedor oficial dos produtos da Sonangol. Ali, a venda é mais rigorosa, só permitem uma garrafa de gás. Acima do limite, “só para quem cumpre as obrigações fiscais”. A apresentação dos documentos é indispensável: “A ideia é não alimentar a venda em locais impróprios, onde os preços são alterado, seguimos apenas as orientações da Sonangol. E isso está a ajudar a acabar com a especulação na minha zona”, garante Alex Vita.
Quem também sentiu os efeitos dos feriados prolongados foi a agência Canhongo, que, mesmo não dependendo da linha de enchimento da Sonagás, não foi poupada. Segundo o gerente da agência do Palanca, Celestino Chimuko, tiveram muitas dificuldades em conseguir o gás, que normalmente compram a granel. “Quando não trabalham aos feriados, atrasam o nosso processo. Nestes últimos, ficámos sem o produto, daí a escassez”, referiu.
A especulação é uma prática que procuram evitar, sobretudo com os produtos da linha Canhongo. “Não vendemos a grossistas, se calhar, é por isso que conseguimos controlar o preço. Atendemos apenas quem precisa de até três botijas. Quem quiser mais, encaminhamos para a nossa central, no Talatona”, concluiu.
Há 10 anos que a Canhongo é conhecida pela botija amarela de gás comercializada por Luanda. A empresa conta com uma linha de enchimento. A garrafa de 12 quilogramas custa 1.400 kwanzas, preço definido pela Sonangol, diferente do praticado pelo informal, 2.500 kwanzas.

Venda de gás na rua, um risco ignorado

Por ser um produto volátil, Hélder Almeida aconselha as pessoas a não revenderem em locais impróprios, “porque pode ser fatal”. E aos compradores a não correrem no mercado informal, devido à falta de segurança.
“Não se sabe qual é a qualidade do produto que estão a comprar. Existem garrafas não preparadas. É melhor dirigirem-se a locais apropriados, como agentes autorizados ou bombas de combustível, porque lá o comprador pode fazer a reclamação ou devolver o produto em caso de falha”.
Para o gerente da agência Canhongo do Palanca, Celestino Chimuko nenhum tipo de gás deve ser comercializado num sítio com agitação. E já tentaram vários apelos à polícia económica e fiscal, sobre o perigo por que passam, tanto os que revendem como aqueles que compram, em função do local impróprio para a comercialização do referido produto. “Mas, mesmo assim continuamos a conviver com eles. O mais engraçado é que compram os produtos noutras áreas e vêm revender junto a agentes autorizados a um preço mais elevado, em relação ao que praticamos. E tiram-nos os clientes, porque esses preferem evitar as enchentes. É uma prática reprovável”, lamenta.

» LEIA TAMBÉM

» Deixe o Seu Comentário