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Dalú Roger, percussionista, produtor e compositor musical

A embelezar os ritmos de Angola

Por Lúcia de Almeida   /  Foto Manuel Tomás

Dalú Roger é um dos percussionistas mais destacados da música angolana. Com mais de 30 anos de carreira, o instrumentista quer estrear-se como cantor. E prevê lançar a sua primeira obra discográfica no próximo ano. Por agora, quer fazer as coisas com calma, naturalidade e sem pressa.

Natural de Luanda, Dalú Roger começou a caminhada musical desde cedo. Com 17 anos, teve o primeiro contacto com um instrumento de percussão no óbito de um tio, por influência do seu avô. Desde aquela data, nunca mais parou.
A tocar há mais de 30 anos, o músico não ficou preso apenas aos ensinamentos do avô. Naquele mesmo dia, agarrou no batuque, deu o seu ‘gingado’ e começou a tocar os ritmos mais tocados nos óbitos. O som projectado no batuque agradou aos presentes. “Comecei a tocar, as tias começaram a dançar. Depois escondi-me, era muito tímido. As mamãs foram atrás de mim e diziam: “é isso mesmo continua”.” De entre os variados instrumentos de percussão, Dalú iniciou-se nas congas, como o seu instrumento de base. Mais tarde, passou a tocar uma variedade de instrumentos percussivos, incluindo marimbas e adquiriu o título de percussionista, fase que recorda “com satisfação”.
A formação para aperfeiçoar as técnicas e o talento surgiram depois, por meio de intercâmbio com outros artistas. Mais tarde, viria a ter um professor congolês chamado Tito Sompas. O músico estreou-se profissionalmente com um dos rostos destacados da música angolana, o músico Bonga, num espectáculo, em Lisboa, Portugal.
Dalú Roger podia ter sido piloto ou até mesmo um advogado, mas é na música especialmente nos instrumentos percussivos que encontrou ligações fortes. Aos 19 anos, já tocava com Rui Veloso, artista português e autor do sucesso ‘Anel de Rubi’.
O artista sente que ainda não está a ser valorizado como devia, afirmando que, “muitas vezes, o ser valorizado não é receber um carro ou uma casa, mas os prémios, às vezes, fazem determinar melhor o nosso chão”. Diz que não quer dinheiro, mas apenas que alguém que apareça e diga: “Dalú, vais gravar um disco, vamos pagar tudo”. “Os instrumentistas ainda estão desvalorizados acho que deviam ser mais acarinhados”, repara.

O “estiloso”

Quem conhece o arista sabe que quase nunca aparece sem chapéus e lenços na cabeça. Considera-se bastante vaidoso e estiloso. E explica que a “vaidade faz sempre parte de nós, basta apenas ser controlada”.
Dalú Roger já tocou com músicos internacionais como Rick Martin, Alejandro Sanz, Rui Veloso, Sara Tavares, Dulce Pontes, Adriana Calcanhoto, Caetano Veloso, entre outros.
Além de dar ritmo, embelezar e pintar músicas, o percussionista tem a missão fundamental de manter o tempo da música constante, dando aos demais músicos uma base rítmica sobre a qual tocar.
Primando sempre pela música africana, o artista vê em Elias Diakimuezo, Joãozinho Morgado, Xico Santos, Massano, Lourdes Van dúnem, Rui e André Mingas, Filipe Mukenga e outros, as suas principais referências.
Questionado sobre o seu lugar de conforto entre o estúdio e o palco, Dalú responde que os dois sítios exigem responsabilidades diferentes. “Em estúdio é uma coisa que fica para sempre. No palco, a responsabilidade é mais calorosa e pessoal, por isso, sempre que subo ao palco, fico nervoso mesmo estando já preparado. O nervosismo faz parte da responsabilidade”, explica.
Entre os variados cantores com quem já tocou o percussionista confessa que executar algumas músicas de Filipe Mukenga, Ndaka yo Wiñy e Totó, às vezes, “é difícil”, porque estes músicos aumentam o grau de responsabilidade. “A forma de tocar certas peças é diferente e é preciso dominá-la, se não, não se toca com ‘feelling’”, esclarece, acrescentando que “a música é um mistério que jamais será desvendado”. “Cada música é um chão diferente e sempre não é fácil”, analisa.
Dalú Roger já pensou em abrir uma escola de artes onde as sonoridades africanas, principalmente as angolanas, seriam as predominantes. Mas viu-se “desamparado” pelos colegas e pelo Ministério da Cultura, depois de ter apresentado o seu projecto e não obter uma resposta positiva. “As pessoas querem o bolinho feito e depois todos querem comer do mesmo bolo. Não fiquei doente psicologicamente nem fiquei frustrado, mas fiquei triste”, lamenta o percussionista.
Por agora dedica-se a outros projectos, entre os quais o ‘passeio’ pelas 18 províncias de Angola, que passa pela recolha de ritmos desconhecidos, com o objectivo de catalogá-los e posteriormente ensinar e ao mesmo tempo contar a história desses ritmos e formatizar em como se toca cada um deles.
Ainda na senda dos projectos, Roger tenciona colocar Gilberto Gil, Carlinhos Brown e Caetano Veloso e outros artistas sonantes a cantarem em dialecto.
Preocupado com o futuro da juventude, Dalú Roger aconselha os jovens a primarem por “caminhos salutares”. Diz que a paz e a independência, ainda que frágeis, valem a pena, porque “custaram muitas vidas”. O apelo de Dalú é no sentido a que todos “sejam mais irmãos e deixem de apostar em coisas fúteis”.

Sem pressa

Aos 50 anos, o conceituado percussionista, Dalú Roger, prepara-se para estrear-se como cantor. Actualmente, está a gravar o primeiro disco, cujo título será revelado na “devida altura”. Rumba e afro house são alguns dos estilos que vão fazer parte do seu novo projecto. Por enquanto, o artista tem duas músicas promocionais disponíveis intituladas: ‘Luz do Meu Rosto’ e ‘Fina’. Já foi chamado de ‘embarrado’ por ocultar o seu lado cantor, mas há quem já tivesse o privilégio de o ouvir cantar. Conta que tem recebido elogios inclusive de ‘grandes’ músicos nacionais, com repercussão internacional. “As pessoas ouvem a minha música e não acreditam, dizem que essa música parece de um kota que Angola já conhece”, conta. O artista caracteriza-se por ser uma pessoa “reservada” e acredita que a “fama é consequência do trabalho”. Afirma que não está à procura de fama e que nem “está atrapalhado”. Apenas quer deixar um bom legado. Para o músico, o mais importante é fazer as coisas sem pressa. “Se não estou a fazer bem, amanhã vai aparecer alguém que vai fazer melhor o ideal é deixa acontecer naturalmente”, argumenta.

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