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No hospital ‘Maria Pia’

Mais casos de hipertensão do que malária

Por Teresa Fukiady  /  Foto Manuel Tomás

Único hospital público do país com serviços de cardiologia e de cirurgias cardíacas, o ‘Maria Pia’ vê os atendimentos à malária ultrapassados pelos casos de hipertensão arterial. A direcção do hospital mostra-se preocupada e recomenda bons hábitos de vida.

Mais de meia centena de pacientes com hipertensão arterial são atendidos diariamente no hospital Josina Machel ‘Maria Pia’, em Luanda, avançou, ao NG, o director-geral da instituição, que indicou serem números acima dos casos de malária. “Está acima dos 50 pacientes por dia, desde a hipertensão arterial não complicada até às complicações com doença renal, acidente vascular cerebral, infarto agudo do miocárdio e outras”, esclareceu Leonardo Inocêncio, mostrando-se “preocupado com a situação”.
O ‘Maria Pia’ é o único hospital público no país com serviços de cardiologia e de cirurgias cardíacas. Desde 2008, na abertura destes serviços, foram realizadas mais de 1.300 intervenções cirúrgicas. Até ao primeiro semestre deste ano, estavam contabilizadas 15 cirurgias cardiovasculares e outros procedimentos da cirurgia cardíaca, entre os quais 20 implantes de marca-passo.
Leonardo Inocêncio observa que é necessário chamar a atenção sobre as doenças cardíacas, alertando a população para a adopção de hábitos de vida “mais adequados”. Uma alimentação saudável, prática de exercícios físicos, a abstinência ao tabaco e o cuidado com as bebidas alcoólicas destacam-se entre as recomendações.
Relativamente ao quadro médico, Inocêncio considera ser “suficiente”, apesar de reconhecer que ainda “não responde na totalidade” aos serviços de urgência. “Uma coisa positiva é a angolanização dos serviços. Na abertura dos serviços, grande parte dos funcionários era expatriado. Actuamente, 97 por cento é nacional”, comparou Inocêncio, referindo-se ao aumento de quadros nacionais especializados.
Mário Fernandes, presidente da Sociedade Angolana de Doenças Cardiovasculares (SADCV) e da Federação das Sociedades de Cardiologia de Língua Portuguesa (FSCLP), analisa, por seu lado, que as doenças cardiovasculares em Angola já podem ser consideradas “epidemia e um grande problema de saúde pública”, tendo em conta que os números de casos notificados já estão muito próximos dos apresentados por muitos países africanos.
Segundo a SADCV, que controla cerca de 200 médicos especialistas, a maioria dos quais concentrada em Luanda, há entre cinco e 10 por cento de angolanos com doenças cardíacas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que as doenças cardiovasculares matam mais de 17 milhões de pessoas por ano em todo o mundo. Segundo a OMS, em 2020, as doenças cardiovasculares, nos países desenvolvidos, poderão matar seis milhões de pessoas entre os 30 e os 60 anos. Nos países em desenvolvimento, poderão morrer 19 milhões de pessoas.

Cardiologia em debate

Sob o lema ‘Com os olhos no futuro da promoção da saúde cardiovascular em Angola’, realizou-se, na passada semana, a 1.ª jornada de Cardiologia e Cirurgia Cardíaca do Hospital Josina Machel, vulgarmente conhecido como ‘Maria Pia’.
A jornada enquadrou-se no plano de acção do hospital, que, entre outras preocupações, alerta para os factores de risco das doenças cardiovasculares, entre as quais a hipertensão arterial, o infarto agudo do miocárdio, a febre reumática, além de outras doenças que têm sido frequentemente atendidas naquele hospital.

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