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A marimba tem uma versão electrónica

Modernização de instrumentos preocupa músicos

Por Amélia Santos   /  Foto Mário Mujetes

O processo de modernização de que estão a ser alvo alguns instrumentos musicais tradicionais, como a marimba e o kissanje, está a preocupar alguns dos mais exímios executantes do cancioneiro nacional, que temem que a música angolana tradicional venha também a ser afectada.

Apesar da nova tendência, alguns músicos preferem olhar para a situação de forma diferente. Ou seja, há, entre os artistas, quem defenda que o uso de instrumentos tradicionais em músicas recentes é algo que pode coexistir nos dias de hoje, bastando que, para tal, haja um enquadramento ‘perfeito’ dos ritmos.
O músico e produtor Caló Pascoal defende que o uso de instrumentos musicais como a marimba, hungo, pwita, kissanje e kongas são de “carácter obrigatório” para manter a originalidade de estilos musicais nacionais como o semba e a kilapanga.
Caló Pascoal considera que os instrumentos musicais tradicionais “não vão morrer”, realçando que, ao contrário do que muita gente diz, estão a ser “cada vez mais valorizados”. “Se o reco-reco ou a dikanza deixarem de existir, o semba, propriamente dito, termina”, observa.
O proprietário da produtora ‘Quebra Galho’ mostra-se, no entanto, preocupado com a modernização de alguns instrumentos como a marimba, que já evoluiu para uma versão electrónica.
“Embora se esteja a utilizar muito a electrónica, a marimba tradicional ainda se usa muito no interior de Angola”, diz Caló Pascoal, para quem as regiões que menos usam são as grandes cidades como Luanda e Benguela.
Em relação à pwita, o músico afirma que “jamais deverá desaparecer”, sendo que tem sido utilizada todos os anos por diversos grupos carnavalescos.
Por outro lado, o também produtor musical diz acreditar que, se os instrumentos musicais tradicionais não forem introduzidos nas aulas de canto ou de técnica vocal, “vai ser difícil incentivar” as pessoas a gostarem desses instrumentos. O artista compara a realidade cubana e brasileira, que têm a obrigatoriedade de ensinar, desde tenra idade, a importância e o uso desses instrumentos. Caló Pascoal considera que o problema “está na divulgação” por parte de quem faz uso destes instrumentos. “Estamos a perder os grandes nomes que tocam esses instrumentos e não se divulga nada. Se houver programas que promovam este tipo de instrumentos, os jovens vão ser incentivados a gostar”, assinala.
A ideia é reforçada pelo percussionista Raúl Tollingas, do agrupamento Kituxi, que acrescenta que “a música só fica descaracterizada” caso os instrumentos convencionais “passem por cima do tradicional”.
Por sua vez, o músico Eduardo Paim considera que os instrumentos tradicionais, quando “bem enquadrados” na música moderna, “ganham um pouco mais de amplitude”, em termos culturais, prevalecendo, de igual modo, a valorização da componente tradicional. Mas tudo isso, sustenta, “depende do enquadramento inteligente e harmonioso” que é dado. O artista defende, porém, que “não é o instrumento musical que define o estilo de música”, mas sim o ritmo harmónico.
O percussionista Raúl Tollingas lamenta a “falta de interesse” dos novos artistas em querer aprender e introduzir esses instrumentos nas suas músicas.
Eduardo Paim defende também, por outro lado, que, nalguns casos, “não é por falta de interesse” que estes instrumentos não são utilizados, mas por dificuldade financeira e de acesso aos mesmos.
“Não é falta de interesse, pode ser falta de recursos”, defende, argumentando que, às vezes, “é mais fácil” encontrar um teclado, porque há em qualquer loja, do que os instrumentos tradicionais.
O autor de ‘Rosa Baila‘ não deixa de reconhecer o valor tradicional que os instrumentos acarretam. “Os instrumentos musicais, por si só, já são merecedores de toda uma atenção, mas é necessário que sejam acessíveis”, afirma, acrescentando que “a tendência do músico é sempre procurar diversificar a sua música e que essa diversificação passa pela incrustação de instrumentos que são poucos usados e/ou conhecidos.
Para Jorge Mulumba, do agrupamento Kituxi, a execução dos instrumentos tradicionais musicais ainda “carece de mais investigação” tanto na forma de armação como na execução. O músico e executante de instrumentos musicais como o hungo, a pwita, a lata e o kissanje lamenta que alguns estrangeiros toquem melhor o hungo do que o próprio angolano que é ‘dono’ do instrumento, embora reconheça que nem todos tiveram a mesma oportunidade que ele, pois é sobrinho do mestre Kituxi, considerado uma das maiores referências da música tradicional angolana.
“Falta mais trabalho para se descodificar melhor a batida dos instrumentos. Tira-se muito pouco a beleza que deve sair dos instrumentos”.

Função e origem dos instrumentos
Os instrumentos musicais tradicionais apresentam várias utilidades e funções, que vão desde a celebração de rituais, como quando se atinge a puberdade, o casamento, durante a caça, em rituais litúrgicos, em funerais, em actos espirituais ou em cânticos tribais. São feitos artesanalmente e considerados obras de arte.
Pode-se destacar, por exemplo, o Ngongi, de origem Bakongo. Trata-se de um instrumento de ferro, feito em sino duplo ou campânula geminada, que é usado para entronização dos chefes tradicionais e assinalar a sua presença. Representa também o poder e a autoridade dos chefes.
Há ainda o kissanje, que pertence ao grupo etnolinguístico Cókwe. Serve para produzir música, sobretudo sentimental.
O Omakola é de origem Nyaneka-humbi. É usado em cerimónias de adivinhação e outras práticas.
Já o Hungo, Pwita e a Dikanza ou reco-reco são de origem Ambundu, instrumentos musicais usados em conjuntos tradicionais e modernos.
O Ngoma ou batuque, de origem Bacongo, é usado pelos bacongos em cerimónias dos reis e investidura de chefes.
O Cinguvu, o tambor de madeira, cujo nome provem do facto de emitir o som idêntico ao ronco do hipopótamo, é de origem Cókwe e é usado em várias cerimónias, servindo também como meio de comunicação.
O Lubembe, de origem Cókwe, é um xilofone de madeira que é usado para efeitos de práticas divinatórias.
A marimba ou dimba (Kimbundu), de origem africana, é um instrumento de percussão, um idiofone, de forma semelhante ao xilofone.

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