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Evaristo Mulaza

O canto do Anjo

Perceber as razões da controvérsia à volta da exoneração de Isaac dos Anjos passa necessariamente por traçar uma ligeira caracterização da ‘polémica’ figura. O recém-exonerado governador de Benguela é um raro perfil dentro do MPLA de que o partido no poder não pode prescindir de forma leviana. Cercado do unanimismo inquebrantável, Dos Anjos encarnou o ideal de uma figura extinta no MPLA e cristalizou-se como o símbolo da autocrítica e da frontalidade, de que poucos quadros insuspeitos do partido no poder se podem gabar. No conjunto restrito do núcleo duro, corporizado no ‘bureau’ político do partido, apenas Rui Falcão, o seu substituto em Benguela, lhe chega aos calcanhares, no exercício da autocrítica em confessionário público. E o caminho quase solitário de Dos Anjos, em matéria de introspecção crítica, não começou a ser trilhado com a sua chegada a Benguela, muito menos ao Namibe e menos ainda à Huíla. Já no seu tempo de deputado à Assembleia Nacional, especificamente na legislatura que terminou em 2008, Dos Anjos destacou-se sempre com o melhor desempenho entre os seus pares no MPLA, no confronto com a barricada da oposição. E, ao contrário da rotineira canção dominical sobre a inquestionabilidade das grandes realizações do partido, proclamadas pelos seus companheiros de bancada, Dos Anjos usou sempre curiosamente a autocrítica como uma poderosa arma de combate aos opositores. E serviu-se dela invariavelmente com tal eficiência e mestria que os deputados da oposição tinham precisamente em Isaac dos Anjos o alvo mais difícil a abater. O aparente ‘segredo’ de Dos Anjos foi jogar sempre na antecipação, deixando os adversários desprovidos de golpes para o ataque. Nas ocasiões em que tropeçou pela polémica, com declarações fracturantes, ao contrário dos comuns ‘faladores do partido’, revelou cuidado em defender-se com argumentos quase imbatíveis. Foi assim, por exemplo, quando, num extinto semanário editado em Luanda, declarou, em vésperas das eleições legislativas de 2008, que, se o MPLA perdesse, haveria guerra. Por muito que a oposição se tivesse esperneado, a justificação de Dos Anjos, na altura, pareceu mais do que académica. Saído da guerra seis anos antes, com vitória declarada do partido governista, o país estava excessivamente ‘Mpelizado’ para admitir qualquer outra força política no Governo. Quando, finalmente, largou a Assembleia Nacional para iniciar uma ‘carreira’ como governador, não se podia esperar outro Isaac dos Anjos senão aquele que se viu e ouviu até às últimas semanas em Benguela. A sua exoneração da ‘Terra das acácias rubras’ só pode ser entendida, por isso, como um tiro no pé, se o que estiver em causa for, de facto, alguma das várias justificações que vão saindo, incluindo de fontes do próprio MPLA.
Se for, alegadamente, pelas declarações à Ecclésia, interpretadas como antipáticas em relação ao candidato do MPLA, é um tiro no pé, porque Isaac dos Anjos personifica precisamente a ideia do novo militante para um novo país que João Lourenço vai apregoando. E, por arrasto, representa uma espécie de escassa referência para muitos eleitores, ainda no limbo, que o MPLA corre o risco de alienar completamente a favor dos seus adversários.
Se, alegadamente, for para compensá-lo com uma posição superior num eventual governo de João Lourenço, também não deixa de ser um tiro no pé. Porque, sendo inoportuna, a exoneração acaba mais por alimentar a teoria do castigo por indisciplina, do que a tese da eventual premiação futura por mérito. As manifestações de apoio a Dos Anjos que se ouvem de todos os lados, incluindo de figuras destacadas da oposição, falam por si. Sugerem que este texto deve ser terminado exactamente como começou. Seja qual for a motivação por detrás da exoneração do agora ex-governador de Benguela, o MPLA não se pode esquecer que, para a percepção pública, Isaac dos Anjos é uma figura rara dentro de si e da qual não se pode livrar de forma impensada.

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