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Geralda Embaló

E agora pergunto eu…

Serviços, querido leitor, serviços, ou melhor será dizer ‘a falta deles’ é a palavra de ordem esta semana… O seu companheiro das quintas-feiras, que se esfola para continuar a bravar a crise para continuar o serviço de chegar até si todas as quintas-feiras, traz-lhe esta semana uma reportagem sobre Chipindo uma localidade de cerca de 85 mil habitantes, que dista a duas horas de carro do banco mais próximo e que é obrigada a ver de forma substancial mensalmente reduzida a sua produtividade, com os serviços públicos a paralisarem para que os trabalhadores consigam acesso aos seus salários. Mau serviço por parte dos mais de vinte bancos da praça que estão tão acomodados com os seus tachos com o Estado e tão concentrados na capital, que se esquecem completamente de que há vida para além das grandes cidades.
É verdade que Angola é um território enorme e que não é possível cobrir condignamente de norte a sul. É também verdade que a banca é um negócio e que o custo de abertura de um balcão bancário é tão elevado, que numa localidade com pouca actividade económica simplesmente não compensa. Mas também é verdade que os bancos que operam em solo nacional e que dele enriquecem com tanta facilidade têm obrigações com o país. As instâncias responsáveis pela regulação bancária, com o BNA à cabeça, e que têm também a responsabilidade da bancarização têm de incentivar os bancos a darem melhor cobertura às muitas localidades que, como Chipindo, são deixadas à sua própria sorte. As novas tecnologias e a banca móvel são instrumentais para baixar custos de representação e para levar serviços bancários básicos a zonas recônditas e que precisam de acesso não apenas a levantamentos, mas a financiamentos que ajudem a criar e a desenvolver economias locais que, por sua vez, vão descentralizar o país que tanto precisa.
Mau serviço de uma banca que, mesmo onde se faz presente, é, muitas vezes, uma nódoa, pejada de faltas de sistema, de falta de capacidade de financiamento ou da básica compreensão da sua missão no quadro de uma economia nacional em desenvolvimento que precisa como de pão para a boca de um sistema bancário que faça fluir liquidez por um número crescente de artérias.
Mau serviço, mas não o pior esta semana, já que esse troféu vai para as duas principais operadoras de serviços de televisão por cabo, a ZAP e a DSTV que decidiram suspender o canal da SIC Notícias sem apelo nem agravo ou tão-pouco consulta a quem pagou pelo serviço completo.
É verdade que a obsessão do canal de Pinto Balsemão com Angola e com todo e qualquer detractor do que chamam depreciativamente de ‘regime’, como se não houvesse eleições e o partido no poder não tivesse sido (bem ou mal) escolhido pelo povo, lhe retiram, por vezes, a objectividade, qualidade e idoneidade. O debate recente sobre o ‘27 de Maio’ foi mais uma mostra de como o vício de guerrilha ao PR angolano tolda completamente o sentido de ética jornalista e atropela qualquer tema por mais sério e merecedor que seja. O ‘27 de Maio’ continua a ser uma ferida aberta na memória colectiva e recente de Angola e merece melhor tratamento, mais seriedade e comprometimento com a história e com quem a viveu do que a tentativa obtusa de transformar o assunto em mais uma critica imputável a JES.
Dito isto, e porque não nos faltam exemplos de maus serviços televisivos, de falta de deontologia básica, de valores éticos e de senso comum na nossa televisão, a guerrilhinha política da SIC ao Governo não devia ser suficiente para a suspensão dos seus serviços em dois provedores que, à altura da assinatura dos contratos com os clientes, se apresentaram como sendo privados. Esta mistura gasosa entre política e interesses comerciais privados que vemos tantas vezes continua a ser prova da imaturidade da nossa democracia em que parece não haver completa separação de poderes.
A justificação apresentada por Isabel dos Santos nas redes sociais, vício que a cada Twit lhe retira a antiga aura de inteligência e capacidade de gestão acima da média substituindo-a por uma de precipitação, ingenuidade bacoca e Trumpismo, (lembro que um dos primeiros foi para desmentir o Valor Económico numa notícia sobre um buraco na Sonangol, que se torna cada vez mais evidente e que já obrigou a PCA a reconhecer a débil situação da empresa), foi infantil e desfasada no tempo. Teria sido a ganância reconhecida de Balsemão (conhecido em Portugal por Bolsanamão precisamente pelo vício do dinheiro) motivo recebido com algum respeito, caso a ZAP tivesse, antes de proceder à suspensão da SIC Notícias, emitido um comunicado para explicar aos clientes que as audiências do canal não justificavam os custo de manutenção na grelha. Pergunto-me, se pessoalizada assim nas redes, a justificação não cai apenas no ridículo de se ver o roto a falar do nu que lembra o macaco que só olha para o rabo do outro… E agora pergunto eu, se havia alguma necessidade de se ver a empresária de todos os sectores apontar indignada a ganância de outrem? O comunicado da SIC esteve melhor mesmo que o argumento de ‘necessidade de salvaguardar a liberdade de imprensa’ não colha pela parcialidade costumeira e pelo custo elevado, comprovado pela ausência de comentário ao argumento comercial da dona da ZAP. Não há ninguém que diga “Isabel menos… menos, menos, menos”?

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