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Jovens com projectos ligados à Educação lamentam dificuldades de várias índoles

É duro ser empreendedor educacional em Angola

Por Onélio Santiago  /  Foto Santos Samuesseca

Há jovens formados que viram na aposta em projecto de educação uma forma de ‘tocar a vida para frente’. Além das palestras e dos cursos de curta duração, há quem planeie superar o Estado, criando a primeira biblioteca comunitária do bairro. Embora se diferenciem nas abordagens e no público-alvo, todos demostram que “não é fácil” ser “empreendedor educacional” em Angola.

Centro de Ajuda Académica (CEAAC). Assim se chama o projecto criado por Deodato Francisco, em 2014, para prestar serviços nas áreas de consultoria e assessoria académicas, bem como na formação complementar.
O CEAAC não se encara propiamente como um centro de formação, daí que as formações que ministra funcionam com um complemento ou extensão do que se ensina nas universidades. Focado na “melhoria da qualidade de investigação científica feita em Angola”, como explica Deodato Francisco, o centro realiza periodicamente, em todo o país, cursos executivos para elaboração de monografia, dissertações, teses e artigos científicos.
A partir de 26 de Junho, o CEAAC vai arrancar com aulas do curso de Lógica Discursiva e Técnica Argumentativas na Mediateca de Luanda. Com duração de cinco dias, o curso é destinado a estudantes e professores universitários, conferencistas ou outros profissionais cuja área de trabelho exija o domínio das técnicas sobre uma comunicação criativa e eficaz. Aberta a todos os que tenham, no mínimo, a 12.ª classe, a adesão ao curso custa 29 mil kwanzas, valor que o director do CEAAC admite ser “um pouco puxado”, se comparado aos preços que a instituição tem praticado desde que foi criada.
Deodato Francisco ressalva, no entanto, que a mudança no preço se deve à especificidade do orador da conferência, o conhecido frei Mário Rui, e, sobretudo, ao facto de a formação não decorrer nas instalações do CEACC, no Projecto Nova Vida. “O espaço está caríssimo. A nossa perspectiva inicial era ministrar o curso no valor de 14 mil kwanzas, mas, em função do local, tivemos de acrescentar mais do 50 por cento.”
Para Deodato Francisco, de 31 anos, empreender na Educação em Angola “não é fácil”, sobretudo para quem tem a filosofia de “democratização do conhecimento”, ou seja, a filosofia que se preocupa em dar formação a todos e da mesma maneira. Por exemplo, explica este pós-graduado em Metodologia de Investigação Científica, só para um curso de cinco dias, o CEAAC chega a gastar mais de um milhão de kwanzas, visto que o arrendamento de um espaço custa mais 300 mil kwanzas diários. “Até mesmo locais públicos, que em princípio estariam mais abertos a estas actividades, também fazem preços muito avultados”, critica Deodato Francisco, que gostaria que as formações de CEAAC fossem acessíveis a todos, pedindo, por isso, uma revisão nos preços das salas de conferências quando o assunto for educação e/ou formação.

SEM DINHEIRO PARA ABIBLIOTECA

As queixas dos jovens que empreendem na Educação não se resumem a quem está focado no ensino superior. Nsalambi Samuel, por exemplo, é dono de uma ‘explicação’ (escola informal) em Luanda, onde também se ministram aulas de alfabetização para adultos. Tem paralisado, há mais de três anos, um projecto sobre a criação da primeira biblioteca comunitária do Camama, bairro onde vive, no qual tem constatado “uma gritante falta de leitura generalizada”.
De acordo com este bacharel em Sociologia pelo ISCED de Luanda, ter um colégio ou escola (seja formal ou informal) sem um espaço que promova a leitura é “bastante contraproducente”, pois a escola fica “sem moral” para criticar os pais e encarregados de educação pela falta de hábito de leitura dos filhos. “Dos livros direccionados para a biblioteca, que resultam da doação de amigos e do meu arquivos pessoal, já temos mais de 200 títulos”, explica Nsalambi Samuel, admitindo que se trata ainda de uma quantidade “irrisória”, tendo em conta a expectativa com que o bairro aguarda pelo funcionamento da biblioteca. “Temos um clube de leitura que, todos os sábados, reúne miúdos dos 10 aos 15 anos que são incumbidos de, durante semana, ler determinado livro e, depois, resumir, explicando aos outros o puderam depreender da obra.” Para Nsalambi Samuel, de 32 anos, o espaço “nem é problema”, uma vez que, no local onde funciona a escola informal, há já uma sala reservada para biblioteca. “Se houver alguém que me dê mais uns 200 livros, a biblioteca arranca”, assegura Nsalambi, acrescentando que já tem, inclusive, alguém que se deverá responsabilizar pela biblioteca, cabendo também a esta pessoa o dever de, com os “valores simbólicos” a serem arrecadados com as consultas dos leitores, tratar da aquisição de mais livros e consequente apetrechamento do espaço.

PALESTRAS DE BORLA
Aos 28 anos, Gabriel Magalhães já leva quase uma década de trabalho em projectos ligados à formação. Começou em 2008, com a criação do ‘Viana Preparatório’, uma iniciativa que visava capacitar os jovens que quisessem ingressar na universidade. Em 2012, notando o aumento de candidatos à formação que ministrava, alterou o nome do projecto, passando a chamá-lo de Luanda Preparatório Universitário (LPU).
Com a mudança no nome, Gabriel Magalhães acrescentou ao curso preparatório a consultoria académica e a realização de palestras, na maioria dos casos gratuitamente, com os temas ‘Como ser bom aluno e ter sucesso na universidade’, ‘Como evitar a cábula’, ‘Como melhorar os métodos de estudo’, entre outros. Embora reconheça a “complexidade” destes assuntos, Gabriel Magalhães discorda dos que entendem que a iniciativa se limita a “vender lugares-comuns”. Mestre em Ciência Política e Administração Pública pela Faculdade de Ciência Sociais da Universidade Agostinho Neto (FCUAN), Magalhães assegura que existem palavras que podem “tocar a mente de um jovem ao ponto de lhe fazer melhorar a performance estudantil”.
Aceitando o desafio de revelar algumas ‘dicas’ que tem usado nas palestras, Gabriel Magalhães refere a necessidade de os estudantes “tomarem uma decisão”, à qual se deverá seguir perguntas como “porque é que vou à universidade?” ou “O que farei lá?’”. Depois de ultrapassadas estas questões, explica Gabriel Magalhães, o passo que se segue é a “perseverança”, visto que o percurso académico é “recheado de obstáculos que, quando não encarados com a inteligência que se impõe, levam à desistência”.
Os projectos do LPU envolvem, além dos estudantes universitários, estudantes do ensino geral, desdobrando-se em trabalhos como orientação vocacional, cursos preparatórios de ingresso à universidade e palestras. Só neste ano, Gabriel Magalhães e a sua equipa, constituída por pedagogos e psicólogos, já percorreram escolas e universidades de Malanje, Bengo, Luanda e Kwanza-Norte. Nos próximos tempos, além da ida a Benguela e Cabinda, Gabriel Magalhães deverá reunir algumas das formações que vem ministrando num livro, que terá como título ‘O livro do estudante – como ser bom aluno e ter sucesso na universidade’. O LPU está aberto à solicitação de qualquer escola ou universidade para ministrar palestras gratuitamente. Para os interessados, a iniciativa possui uma página no facebook. Todos os meses, o LPU organiza, em Luanda, na Casa da Juventude, palestras gratuitas em que profissionais de sucesso de uma determinada área falam dos passos que tiveram de dar para prosperarem.

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